Dados do IBGEindicam que cerca de 90% das empresas brasileiras têm perfil familiar. Na gastronomia, o modelo ganha uma camada extra. O empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, conhece o modelo por dentro: depois do Restaurante Capitães, desenvolveu o Hina Restaurante em parceria com a irmã, Milena da Silva.
A confiança entre irmãos resolve muita coisa no começo. Não resolve, porém, quem decide o cardápio, quanto cada um retira por mês ou o que acontece se um dos dois quiser sair. A seguir, abordaremos as perguntas que essa sociedade precisa responder antes da inauguração.
Por que a sociedade entre irmãos pede mais formalidade, e não menos?
Um irmão passa doze horas por dia na cozinha. O outro cuida das compras e do financeiro em meio período, porque mantém outro negócio. No primeiro ano, ninguém reclama. No segundo, a dúvida aparece no almoço de domingo: a divisão do lucro continua justa?
O conflito raramente nasce de má-fé. Nasce de expectativas que nunca foram ditas, porque o vínculo familiar dava a impressão de que não precisavam ser. Entre sócios sem parentesco, o desacordo fica no trabalho. Entre irmãos, ele atravessa a porta do restaurante e chega à família, e é justamente esse risco que torna o combinado por escrito mais importante.
O que precisa estar escrito antes de abrir as portas?
Dois documentos cumprem papéis diferentes. O contrato social, registrado na Junta Comercial, define capital, participação de cada sócio e quem administra a empresa. O acordo de sócios trata da convivência: funções, regras de retirada, novos aportes, critérios de decisão e condições de saída.
Num restaurante, a divisão de funções merece detalhe. Cozinha, salão, compras e gestão financeira exigem perfis distintos, e deixar claro quem responde por cada área evita que duas pessoas mandem no mesmo fornecedor. A experiência acumulada em outros segmentos ajuda a antecipar essas decisões, como mostra a trajetória de Fredy Restrito, que chegou à gastronomia depois de anos no comércio de roupas e na marca Restrito.
A cláusula de saída costuma ser a mais adiada e a mais necessária. Ela define como as quotas serão avaliadas, se o irmão que permanece tem preferência na compra e em quanto tempo o pagamento será feito. Sem essa regra, a saída de um sócio pode obrigar a venda do restaurante inteiro para quitar a parte dele.
Como separar o caixa do restaurante do dinheiro da família?
Restaurante movimenta dinheiro todos os dias, e esse fluxo constante cria uma ilusão de sobra. Um saque para cobrir uma despesa pessoal parece pequeno, mas desfalca o capital de giro que paga o fornecedor da semana seguinte.
O caminho, na concepção de Fredy Restrito é tratar a remuneração com regras. Pró-labore fixo para quem trabalha na operação, distribuição de lucros só depois do fechamento do período e conta bancária exclusiva da empresa são práticas simples. Entre irmãos, elas têm uma função adicional: tiram da relação pessoal a discussão sobre quem ganhou mais.
O que a família acrescenta a um negócio, além do risco?
Em última análise, depreende-se que a sociedade familiar costuma ser lembrada pelos conflitos, mas ela também carrega uma vantagem difícil de copiar: horizonte longo. Irmãos tendem a pensar o negócio em anos, não em trimestres, e a sustentar a empresa em fases ruins que fariam um sócio de ocasião desistir.
O contrato, nesse sentido, não é sinal de desconfiança. É o que permite que o vínculo sobreviva às divergências inevitáveis da operação. Fredy da Silva Gonçalves Bento reflete essa relação entre família e empresa em outro capítulo de sua trajetória: batizou sua holding de Edith Manuel, em homenagem aos avós, como forma de registrar que as origens também fazem parte do que se constrói.
