Lula se movimenta como se ele fosse o governo do Brasil e se intromete onde não é chamado

Luiz Inácio da Silva está se tornando uma espécie de chefe de um governo paralelo, tal sua desenvoltura nas lides políticas do país. Está conversando com todo mundo. É preciso ter muito descaramento e desfaçatez. Agora está em Brasília costurando acordos e conchavos. Na segunda-feira, 2, conversou demoradamente com Marcelo Freixo (PSOL), discutindo a formação de uma frente ampla para derrotar Bolsonaro em 2022. Freixo informou que falou com Lula sobre as milícias no Rio de Janeiro e a relação de Bolsonaro com ex-militares que hoje atuam no crime organizado. Mas o que mais espanta é ver Lula marcando reunião com embaixadores de outros países para discutir a questão da vacinação no Brasil, como se fosse ele o presidente da República. Vendo as brechas escancaradas à sua frente, o ex-presidente e ex-presidiário por corrupção vai entrando, como uma autoridade. Não é brincadeira! Vai se encontrar com o embaixador russo, Alexey Labetskiy, para discutir a vacinação no Brasil e a vacina Sputnik V, que não teve o uso aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Lula quer reverter essa decisão.

Fala-se que Lula já teria se reunido com diplomatas da Embaixada da Alemanha. Sabe-se, ainda, que Lula tentou um encontro com Renan Calheiros, relator da CPI da Covid-19, mas Calheiros se negou, argumentando que isso poderia prejudicar seu trabalho na CPI com ataques de apoiadores de Bolsonaro. Esses encontros estão sendo organizados pelo ex-chanceler Celso Amorim, que tenta também uma reunião de Lula com o embaixador da China, país que tem fornecido insumo farmacêutico ativo necessário para a fabricação de vacinas no Brasil. Além de Celso Amorim, participa dessas reuniões o ex-candidato à Presidência Fernando Haddad, derrotado por Bolsonaro em 2018. Lula já tem encontro marcado com o ex-presidente José Sarney, com quem tratará de questões ligadas ao auxílio emergencial que, conforme diz, deve ser de R$ 600 durante a pandemia. Por segurança e para evitar tumultos com grupos bolsonaristas, o PT decidiu que de agora em diante a agenda de Lula não será mais divulgada.

Lula pensa em formar uma frente com a participação do PT, PDT, PSB, PCdoB e PSOL, e os contatos já estão sendo feitos. Luiz Inácio da Silva já mandou um recadinho para o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que deu sinal verde para um encontro. É só marcar a data. O cenário é esse. Com a ausência do governo, Luiz Inácio da Silva vai se movimentando como se fosse ele o governo do Brasil. Lula está aproveitando bem esse vazio na área da vacinação. Uma área que, no fundo, só tem conversa, conversa, conversa e mais conversa. Não tem nada a perder. Pelo contrário, só tem a ganhar. O que se estranha é a imobilidade de Bolsonaro diante desse quadro. Na verdade, Lula está se intrometendo onde não é chamado. Aliás, não precisa ser chamado para se intrometer em tudo. E assim ele vai seguindo rumo a 2022, ex-presidiário solto por manobra do STF, livre de qualquer condenação, como se fosse um cidadão do bem.