Rituais de despedida são essenciais para enfrentar o luto na pandemia

Em uma pandemia, mortes em massa ocorrem em um curto espaço de tempo, afetando de modo muito importante o processo de terminalidade e morte. As medidas de distanciamento social adotadas para conter a rápida escalada do número de infectados pela Covid-19 agravaram ainda mais a interação presencial entre os doentes e seus familiares e amigos. A experiência de luto, entretanto, requer a realização de rituais de despedida e funerários entre doentes em estado grave e sua rede socioafetiva. Os processos acontecem por meio do diálogo, da resolução de pendências, das lembranças dos bons momentos compartilhados na vida, agradecimentos e pedidos de perdão. O ritual de despedida traz alívio, organização dos afetos e uma melhor elaboração do luto.

Neste difícil contexto em que o coronavírus mata uma pessoa por minuto no Brasil, me emocionou saber que o Hospital Municipal do M’Boi Mirim vem adotando a prática das visitas de despedida. Este é um dos hospitais com mais casos de internações e cuidados de pacientes com Covid-19 na zona sul de São Paulo. Sem dúvida, os profissionais de saúde, mesmo sobrecarregados e cheios de funções, têm oferecido um atendimento humanizado e apoio emocional às pessoas hospitalizadas na tentativa de aliviar o sofrimento dos pacientes.

Não vamos deixar de nos atentar ao que realmente importa! No dia de hoje, já são mais de 40 mil brasileiros mortos e mais de 700 mil casos. É adequado termos medo de que nós mesmos, ou alguém que a gente ama, fiquemos doentes. É adequado sofrermos pela instabilidade social gerada pela pandemia e por nos colocarmos no lugar de pessoas próximas ou desconhecidas. Já perdemos tanto! É preciso buscarmos saídas em saúde mental para facilitarmos o processo de luto das famílias e para tentarmos trazer maior conforto aos pacientes em seus últimos momentos de vida.