A doninha da Amazônia que para sempre será 'africana'


Conheça a curiosa história por trás do nome de um dos mais raros mamíferos brasileiros Nunca ninguém conseguiu divulgar a imagem de uma doninha-amazônica viva.
Arte: Rosana Arraes/EPTV
Depois de Charles Darwin, um dos mais conhecidos personagens da história da biologia é Lineu. Não o Lineu que você talvez tenha pensado, o exemplar pai do programa “A Grande Família”, mas o sueco Carlos Lineu (Carl von Linné, em sueco) que viveu no século XVIII, entre 1707 e 1778.
Lineu teve seu nome para sempre assegurado na história das ciências por ter sido o criador do sistema de classificação e nomenclatura das espécies que, passado quase 300 anos, é utilizado ainda hoje. O mesmo sistema que deu origem aos nomes científicos em latim e grego que fazem com que qualquer conversa entre dois biólogos pareça uma troca de ofensas.
O sistema criado por Lineu sobrevive até hoje no Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, que é o manual de instruções que todo biólogo deve seguir quando precisa batizar uma nova espécie. O código traz uma série de regras que visam organizar o ato de nomear e classificar os animais e uma das mais importantes delas é o “princípio da prioridade”.
Esse princípio visa garantir a estabilidade dos nomes e apenas considera válido o nome científico mais antigo atribuído a uma determinada espécie. Ou seja, após batizada uma espécie não pode trocar de nome, a não ser em alguns casos muito específicos, que não vou explicar em maiores detalhes aqui, pois não pretendo aplicar uma prova de biologia para quem está lendo o texto.
O sueco Carlos Lineu foi o criador do sistema de classificação e nomenclatura das espécies que é usado até hoje.
Domínio Público
Imagine você um naturalista de algum museu europeu em pleno século XIX e que recebe um animal taxidermizado (“empalhado”) sem saber maiores detalhes sobre onde ele foi obtido. Ao analisar o espécime você percebe que se trata de uma espécie nova que precisa ser batizada. Essa situação era comum naquela época, já que muitos espécimes eram enviados diretamente das colônias para a Europa sem estarem acompanhados de muitas informações. O que deu origem a muitos nomes que por diferentes motivos podem ser considerados “inadequados”.
Em 1838, o francês Anselm Desmarest descreveu uma nova espécie de doninha com base em um animal taxidermizado que encontrou no Museu de História Natural de Paris. Ainda que muito vaga, a etiqueta do espécime indicava como procedência “África”. Assim, Desmarest o batizou de Mustela africana. A suposta “doninha-africana” nunca mais voltou a ser encontrada e tornou-se um grande mistério entre os estudiosos dos mamíferos.
Parentes dos furões, da irara e das lontras, as doninhas são animais de hábitos muito discretos. O formato do seu corpo é muito característico, esguio, com orelhas pequenas, cauda longa e pernas curtas. Carnívoras de hábitos vorazes, são conhecidas por atacarem animais muito maiores que elas. A “doninha-africana” possui a parte superior do corpo, cauda e cabeça marrom avermelhado, já a parte debaixo da mandíbula, garganta e o restante das partes inferiores é branco amarelado, cortadas por uma faixa da mesma cor do dorso que vai do peito até o ventre.
Áreas de floresta intocada também estão sujeitas à degradação
Luciano Lima/TG
Em 1913, um outro personagem, o zoólogo espanhol Ángel Cabrera, descobriu um fato muito importante sobre a então doninha-africana: ela, simplesmente, não era africana! Após examinar o espécime no Museu de Paris, Cabrera se convenceu que a Mustela africana descrita em 1838 por Desmarest era a mesma espécie que havia sido batizada em 1897 pelo pesquisador Emílio Goeldi como Mustela paraensis a partir de um animal obtido no Pará. Isso mesmo, a doninha-africana é, na verdade, uma doninha-amazônica.
Atualmente, a doninha-amazônica é considerada o carnívoro brasileiro menos conhecido e até hoje não foi divulgada nenhuma imagem da espécie viva.
A única espécie de doninha do Brasil habita áreas de floresta densa na Bacia Amazônica e são pouquíssimas as pessoas que tiveram o privilégio de observá-la na natureza. Além do Brasil, ela também ocorre no Equador, Peru, Colômbia e Bolívia. Apesar de ser uma exclusividade da América do Sul, regra é regra, ou seja, em se tratando de nomes científicos “batizou está batizado”. Por isso, a doninha-amazônica talvez seja um dos meus exemplos favoritos do poder da “globalização” na ciência, uma espécie amazônica que por conta de um sueco e um francês será sempre “africana”.
*Luciano Lima é ornitólogo e faz parte da equipe do Terra da Gente