Aves e suas onomatopeias


Bem-te-vi, quero-quero e acauã, descubra o que esses e outros nomes de aves brasileiras têm em comum. Acauã é espécie rodeada de histórias e misticismos
O que uma aula de português tem a ver com uma reflexão sobre as aves? A natureza pode nos ensinar muito mais do que se imagina. Um exemplo são as onomatopeias que podemos identificar facilmente no mundo das aves. O biólogo Luciano Lima, que faz parte da equipe do TG, traz abaixo um texto muito interessante sobre esse tema.
O encanto do acauã e outras onomatopeias – Luciano Lima
Nos últimos dias o acauã tem cantado bastante aqui no meu quintal, nas montanhas da Serra da Bocaina. Seu canto tem um poder magnético sobre mim. Quase sempre ao ouvi-lo, paro o que estiver fazendo e vou para a janela procura-lo. Geralmente ele está pousado no topo de um pinheiro a uns 100 metros da casa ou em uma árvore seca na beira da estrada, também não muito longe.
A espécie é relativamente comum por aqui e por isso já perdi a conta da quantidade de vezes que esse “ritual” se repetiu. O acauã chama, e eu respondo indo para a janela. Fico ali, de olho nele alguns minutos, e vira e mexe me pego pensando como sou sortudo. Tem gente que sonha com uma janela com vista pro mar, já eu, não poderia querer nada melhor que uma casa com vista para as montanhas e acauãs.
Se você nunca escutou um acauã, no portal WikiAves é possível ouvir não apenas ele, mas praticamente todas as outras aves brasileiras. No entanto, desconfio que por melhor que seja qualquer arquivo de som do acauã armazenado digitalmente, dificilmente se igualará à gravação que o grande ornitólogo Helmut Sick fez sem gravador e nem microfone, mas com as palavras.
Acauã é um falcão conhecido por “chamar a seca” do sertão com seu canto
Terra da Gente
A descrição está na página do 262 daquela que é considerada a “bíblia” sobre as aves brasileiras, o livro “Ornitologia Brasileira”: “Notável pelo dueto do casal, de sequência ininterrupta que pode prolongar-se por nove minutos ou mais, desenvolvendo-se tal estrofe em tom quase que “dramático”: um cacarejar baixo “gogogo…” como introdução, segue-se uma seqüência de fortes “kua” a qual se alonga, por exemplo, por quatro minutos e, finalmente, entoam gritos trissilábicos: “…a-cua-ã” durante quase o mesmo tempo, sendo esta a parte mais impressionante”.
Os tais “impressionantes ” “gritos trissilábicos” deram origem ao nome acauã, que é uma onomatopeia de origem indígena. Se você não se lembra da última aula de português que participou, permita-me bancar o Professor Pasquale e refrescar sua memória. Onomatopeia é uma figura de linguagem onde os sons são transcritos por meio de palavras. Tchibum, toc-toc, tic-tac, hahaha, são alguns exemplos de onomatopeias bem conhecidas. Muitos nomes populares de animais têm origem em onomatopeias, especialmente de aves, que estão entre os animais mais sonoros.
Ainda de acordo com Helmut Sick, que tinha ouvido absoluto e um fascínio especial pelo canto das aves brasileiras, os nomes onomatopeicos criados pelos povos indígenas brasileiros são “muito bons” pois, ao mesmo tempo em que transmitem uma idéia realista do canto da ave, também “soam agradáveis”. Além do acauã, ele cita como exemplo nandu, pinhé, caracará, quiri-quiri, arara, bacurau, cancã, entre outros. No entanto, os nomes onomatopeicos não são apenas de origem indígena. Nomear aves com bases nas suas vocalizações é uma prática ancestral e comum nas mais diferentes línguas.
O tem-farinha-ai também é conhecido como piu-piu e formigueiro-pintalgado.
Rafael Lima/Acervo Pessoal
Quero-quero, bem-te-vi e tico-tico são aves conhecidas por quase todo brasileiro. Mas você sabia que quem-te-vestiu não é uma marca de roupas, joão-corta-pau não é o nome de uma marcenaria e fogo-apagou não é nome de remédio para curar ressaca?
Todos são nomes de aves baseadas em onomatopeias em língua portuguesa, assim como saracura-três-potes, joão-tenenem, fim-fim, corocochó e tantos outros – a lista é realmente extensa. Uma rápida passada de olhos na Lista das Aves do Brasil do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos, revela dezenas – talvez centenas – de nomes onomatopeicos, os quais para a maioria das pessoas soariam completamente sem sentido, mas que fazem parte do universo paralelo dos observadores de aves e ornitólogos.
Outro fato muito interessante, é que a origem de muitos nomes de origem onomatopeica está mais relacionada com diferentes países e regiões, do que com os idiomas propriamente ditos. Esse fenômeno, além de dar origem a nomes distintos para se referir a uma mesma espécie em uma mesma língua, deixa claro que as onomatopeias podem ser consideradas parte de culturas locais.
Bem-te-vi é reconhecido facilmente pelo canto
Dessa forma, Pitangus sulphuratus, que se distribui desde o sul dos EUA até o centro da Argentina, é o nosso bem-te-vi em português, kiskadee em inglês, e qu’ est c em francês (Guiana Francesa). Em espanhol, seu canto e, consequentemente seu nome, é interpretado de diferentes formas a depender do país: Bienteveo (Chile), Luis Bienteveo (México), Pitogué (Paraguai), Cristofué (Venezuela), Bichofué (Colombia) e Bichofeo (em partes da Argentina). Com esse último porém, não concordo, pois acho o bem te vi um “bicho lindo”.
Outra onomatopeia questionável, na minha humilde opinião, é “deus-quer-um” – mais um nome derivado dos “gritos trissilábicos” do acauã. Interpretação do seu canto que inspirou, ou foi inspirado, pela crença popular que ouvir o acauã é sinal do pior mau-agouro, um presságio de morte. Talvez fosse prudente eu tomar mais cuidado ao me aproximar da janela para observar o acauã, mas desconfio que não é só “a beleza que está nos olhos que quem vê”, a onomatopeia também parece estar nos ouvidos de quem ouve.
*Luciano Lima é biólogo e faz parte da equipe do Terra da Gente