Banco genético pioneiro estuda a reprodução das onças-pintadas como forma de conservação


Brasil é o primeiro país do mundo a ter um banco de sêmen de onças-pintadas. Colheita de material genético de animais de vida livre pode garantir o futuro da espécie. Veja o trabalho do Instituto Reprocon em uma das capturas de onça-pintada, no Pantanal
Mais de 100 onças-pintadas capturadas, 300 anestesias realizadas, 15 amostras de sêmen colhidas e o pioneirismo das tecnologias menos agressivas, invasivas ou danosas. Esse é o histórico de quase três anos de existência do instituto Reprocon, responsável pelo primeiro banco de material genético de onças-pintadas de vida livre do mundo.
Seis pesquisadores foram os responsáveis pela criação do projeto Reproduction 4 Conservation (Reprodução para Conservação). Fundado em 2017, o instituto tem como objetivo desenvolver as técnicas biológicas para manter um acervo genético vivo de animais, especialmente de onças-pintadas livres, uma atuação cada vez mais urgente já que os indivíduos da espécie estão isolados em fragmentos de florestas que resistem ao desmatamento e acabam cruzando entre si, gerando diversos problemas para as populações, entre eles a extinção.
Equipe do Reprocon realiza a inseminação artificial em onças-pintadas como forma de multiplicação destes exemplares da espécie ainda restantes
Pedro Nacib/Acervo Pessoal
“Na Caatinga, por exemplo, estima-se que temos menos de 250 exemplares e apenas duas fêmeas estão em cativeiro, de forma que não é possível reproduzi-las. Talvez tenhamos que tirar um macho de vida livre e levá-lo para cativeiro para que tenha os filhos para salvar a espécie. É triste pensar em deixá-lo ‘preso’, mas ele precisa reproduzir e criar uma população viável, para que depois volte”, explica Pedro Nacib Jorge-Neto, um dos membros fundadores da equipe.
Foi em 2007 que o médico veterinário teve contato com os primeiros felinos de vida selvagem. As onças que avistou na época eram pardas (Puma concolor) e estavam visitando e atacando os animais da fazenda onde atuava com reprodução de ruminantes. A situação provocava descontentamento de produtores que já cogitavam em matar o predador. O cenário de conflito o fez pensar sobre a dificuldade de reprodução e sobrevivência de animais como esses, enquanto no universo do agronegócio as tecnologias evoluíam tanto que tornavam a replicação do gado cada vez mais eficaz.
Equipe passou a utilizar uma tecnologia avançada de análise de sêmen para trabalhar com os felinos do Brasil
Pedro Nacib/Acervo Pessoal
Mais da metade das onças-pintadas que sobreviveram no mundo estão no Brasil
O choque foi a inspiração para mudar os rumos do trabalho e mergulhar numa empreitada em prol da conservação. Ao lado dos médicos veterinários Gediendson Ribeiro De Araújo, Hernan Baldassarre, Thyara Deco-Souza, Cristiane Schilbach Pizzutto, Letícia Alecho Requena, Anneliese De Souza Traldi, Maitê Cardoso Coelho da Silva, Thiago Luczinski, Lucas Cazati e Antônio Carlos Csermak Júnior, a equipe leva a campo, no meio da mata, equipamentos da central de sêmen de suínos e bovinos para a coleta de dados de onças.
Além da apropriação do conhecimento de outras áreas, o desenvolvimento de equipamentos para resfriar o material genético retirado dos felinos foi apenas uma das tecnologias criadas. Se a colheita de sêmen antes era realizada por eletroejaculação, os pesquisadores idealizaram um anestésico que facilita a retirada do material por sondagem uretral. Se as armadilhas de laço eram obra de caçadores, os profissionais adaptaram o modelo para provocarem menos estresse ao animal e garantirem a segurança de todos os envolvidos na captura.
O material obtido na captura da onça-pintada não perderá o efeito e poderá ser usado por décadas
Gustavo Fonseca/Acervo Pessoal
“As pessoas podem assustar, mas o laço não é de caçador. Hoje é seguro e eficiente. Há um sistema de molas que amortece o tranco da captura da onça para não feri-la, há um sinal que nos avisa automaticamente quando isso ocorre, ficamos apenas uma hora de contato com o animal e usamos uma anestesia com fármacos que causam amnésia, para não deixar uma lembrança traumática do procedimento. Quando a onça acorda, ela lembra apenas que foi presa e já se vê solta”, descreve o médico veterinário.
Segundo ele, nenhum outro local do mundo tem uma amostragem tão grande de onças-pintadas capturadas, um número que passa de 100 indivíduos. Já as anestesias foram mais de 300 realizadas nos trabalhos com esses animais. A proficiência na atuação é comprovada, por exemplo, pelo fato de todas as onças vítimas do incêndio no Pantanal em 2020 terem sido tratadas por membros do instituto.
Após incêndio no Panatanal, onça-pintada foi sedada durante o resgate e encaminhada para Cuiabá
Willian Gomes/Secom UFMT
Zoológico congelado
As amostras de cativeiro das células reprodutoras de machos e fêmeas de onças-pintadas foram colhidas no criadouro científico NEX – No Extinction e no Instituto Onça Pintada (IOP), ambos em Goiás. Os indivíduos de vida livre, capturados para colheita do material, de sangue e realização da análise médica, foram encontrados pela equipe em expedições realizadas no Pantanal, Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado.
Embora o foco principal do projeto se concentre nas onças-pintadas, o Reprocon também atua no desenvolvimento de biotecnologia e na análise da reprodução de cachorros-do-mato, onças-pardas de cativeiro, tamanduás-bandeira, lobos-guará, pacaranas, suricatos, raias e até mesmo tubarões.
Na imagem, a equipe realiza a colheita de sêmen no único representante vivo da família de roedores sul-americanos Dinomydae e o 3° maior roedor do mundo, a pacarana
Pedro Nacib/Acervo Pessoal
O armazenamento de tantas informações obtidas pelas análises genéticas necessita de condições específicas para se conservar. O sêmen das onças-pintadas, por exemplo, deve ser mantido a uma temperatura de -196°C para que o espermatozoide continue capaz formar um embrião e inseminar uma fêmea da espécie. A lógica desse acervo “abaixo de zero”, segue o conceito de “zoológicos congelados”, projetos úteis para salvar espécies da extinção.
Conservação única
Assim como a origem do projeto teve relação com a percepção das tecnologias do agronegócio, os pesquisadores do instituto acreditam que a mudança nos padrões da conservação depende de um alinhamento de todos os fatores atuantes na biodiversidade. Segundo eles, o movimento “one conservation” (conservação única) tem a intenção de trabalhar de forma integrada com as espécies in situ (vida livre), ex situ (cativeiro) e as consequências das ações humanas (sejam elas boas ou ruins).
Nessa lógica, o agronegócio se integra como parte essencial da conservação. “As novas gerações de pecuaristas têm vontade de produzir de forma mais ecológica e sustentável, porque se não fizerem assim terão prejuízos. Um pecuarista que matava a onça que o atrapalhava, se via tendo que lidar com a destruição das lavouras por queixadas, animais que essa onça antes predava. Nosso grupo tem trabalhado para mitigar conflitos, auxiliando produtores e gerando estudos e conhecimentos para criar ações efetivas”, conta.
Além das análises obtidas com as capturas, a equipe também realiza trabalhos com as onças-pintadas em laboratórios
Pedro Nacib/Acervo Pessoal
Focado nesse propósito, o grupo iniciou, há um ano e meio, estratégias para facilitar o apoio de empresas e pessoas que queiram patrocinar as ações de conservação e desenvolvimento de biotecnologias. Os investimentos têm o foco principal no custeamento das campanhas de campo dos pesquisadores do Reprocon e no incentivo para as metas de atuação.
“Num futuro próximo, nosso objetivo é inclusive conseguir obter êxito na clonagem de onças-pintadas para contribuir com a oxigenação genética e também realizar o intercâmbio de material genético entre os animais de vida livre e cativeiro (capturando uma fêmea livre e inseminando-a com o sêmen de machos de cativeiro e vice versa)”, conclui Pedro Nacib.