Campinas completa 1 ano de quarentena com escalada da Covid-19 e temor por dias piores


Especialistas explicam sobre queda na adesão às medidas restritivas e apontam que metrópole ainda terá dias duros nas próximas semanas; médica da Unicamp só vê uma saída com uma vacinação maciça e veloz. 1 ano após primeiro caso de Covid em Campinas: veja fatos que marcaram
Do medo diante da ameaça ainda pouco conhecida para o descontrole frente a um inimigo com face e nome bem familiar: Covid-19. Um ano depois do início da quarentena, a Campinas (SP) que naquele 23 de março de 2020 antecipava medidas restritivas do estado para tentar frear o avanço de casos, vive um cenário de caos, com escalada diária de número de mortos e quase duas centenas de pacientes lutando pela vida na fila por leitos, e o temor que dias piores estão por vir.
“A gente acha que ainda vamos ter dias duros, não sei precisar quantos, mas algumas semanas, talvez até abril, maio, não sei. Realmente está muito difícil fazer qualquer tipo de previsão”, diz Andrea Von Zuben, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa).
Para o infectologista André Bueno, da PUC-Campinas, esse cenário atual da metrópole reflete o fato do Brasil jamais ter realizado um controle adequado da pandemia, principalmente pelo fato de o governo federal “nunca ter se empenhado e seguindo as recomendações de especialistas.”
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“O comportamento que a gente está vendo agora, as curvas ascendentes de casos, um pouco depois da eleição, com feriado de fim de ano e cansaço da população com essa extensão da quarentena, isso vai se somando. E junta-se a isso um fator novo, que é a variante com potencial maior de transmissão. O comportamento explosivo que estamos vendo agora, é pelo fato de nunca termos conseguido controlar”, pontua.
Foto mostra movimento na 13 de Maio, em Campinas, nos dias 25 de março, 9 de abril e 8 de junho de 2020
Osvaldo Furiatto/Arquivo Pessoal
Médica infectologista da Unicamp e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, Raquel Stucchi destaca que as medidas restritivas podem ser, sim, efetivas, mas que essa falta de ação do governo federal e o fortalecimento de um movimento uníssono é o que impede bons resultados.
“A gente sabe o que funciona, mas tem que ter apoio, todo mundo falando a mesma língua. Isso cria descrédito com as medidas. Mas veja o exemplo de Araraquara, que fez um bloqueio total por uma semana, com muita fiscalização, punição, e um mês tem redução nos casos e internações”, afirma Raquel.
1 ano de quarentena em Campinas
Exaustão
Passado um ano da quarentena em Campinas, os moradores conviveram com diferentes níveis de restrição. Depois de se acostumarem com as cores do Plano SP, oscilando da vermelha à verde, num sinal de que o pior parecia ter passado, para um retrocesso no controle de casos e a adoção de regras ainda mais duras com a inédita fase emergencial.
“As pessoas imaginam que a gente está nessa quarentena há um ano e não veem uma luz no fim do túnel. Algumas desistem, param de seguir com tanto rigor, começam a fazer aglomerações. Isso vai se somando. E nessa doença se você tem um percentual da parcela que se expõe, o vírus continua circulando”, explica André Bueno.
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Segundo explica Andrea Von Zuben, havia a expectativa, após um período mais tranquilo em setembro, de que a adesão da população pelo distanciamento físico e uso de máscaras surtisse efeito.
“A proposta da Secretaria de Saúde e da maioria era assim: ‘vamos voltar a conviver com o vírus desde que você só saia de casa de máscara, não vá em aglomeração e sempre mantenha distanciamento físico’. Porém, a gente já não vê a mesma adesão da população. A gente sente que começa a haver uma fadiga, um cansaço, e as pessoas passam a não levar mais a sério, e a gente começa a ter de novo, a partir de novembro, um aumento do número de casos. Hoje em dia a gente já passou, inclusive, os casos que a gente teve no pico, em julho, em termos de caso notificado”, ressalta.
De acordo com a diretora do Devisa, o recado tem tudo para ser simples.
“Uma coisa é certa: aderindo às medidas não pega a doença, mas se não aderir, você pega e você não sabe se vai evoluir pra gravidade ou não”, diz.
Movimento de pedestres em Campinas (SP) no dia 11 de março
DENNY CESARE/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Vacina é a saída
Sem a existência de medicamentos cientificamente comprovados para combate à Covid-19, a vacina é a maior esperança da humanidade no enfrentamento da pandemia. Desde que isso ocorra de uma forma rápida e em grande parcela da população, alerta Raquel Stucchi.
“Precisa ser uma vacina expressiva e rápida. Se demorar oito meses para vacinar, podemos ter outras variantes, pode ser que o primeiro grupo já não tenha a mesma eficácia e tenha que vacinar novamente. Precisamos ter vacinas e usá-las rapidamente”, pede a infectologista.
Expectativa compartilhada por Andrea Von Zuben, que destaca que além do imunizante, a adesão da população às medidas restritivas é fundamental.
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“A gente espera ter mais vacina, porque acho que tendo mais vacinas tem maior chance de realmente diminuir internação e gravidade, mas tudo isso são dois grandes componentes: ter mais vacinas, numa quantidade boa, para várias faixas etárias, e adesão da população. Os dois estão fora da governabilidade do município”, completa.
Profissional de saúde manipula dose da vacina CoronaVac, contra Covid-19, em Campinas
LEANDRO FERREIRA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Pressão na saúde
Campinas registrava na noite desta segunda (22) 186 pacientes com Covid-19 à espera de leitos de UTI e enfermaria. Deste total, 110 precisam ser atendidos na estrutura de terapia intensiva e 76 aguardam por uma vaga em leito de enfermaria.
A cidade atingiu o número de 402 pacientes internados em leitos de UTI, dois a mais do que na sexta-feira – é o recorde durante toda a pandemia.
Os leitos estão divididos da seguinte forma, em números absolutos:
SUS municipal: 149 leitos, dos quais 149 estão ocupados (100%). Não há leito livre.
SUS estadual: 40 leitos, dos quais 39 estão ocupados (97,5%). Há 1 leito livre.
Particular: 227 leitos, dos quais 214 estão ocupados (94,27%). Há 13 leitos livres.
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