Conheça as cobras mais peçonhentas do Brasil


Ranking varia de acordo com potência do veneno e frequência de acidentes. As jararacas são as responsáveis por mais de 90% dos acidentes com cobras no Brasil
Willianilson Pessoa/Arquivo
O Brasil é casa para mais de 400 espécies de serpentes. Dessa lista, as peçonhentas pertencem a quatro grupos: o das jararacas, das corais, das cascavéis e a surucucu-pico-de-jaca – única do gênero.
Exceto a surucucu, que ocorre na região amazônica, até o Mato Grosso, e na Mata Atlântica, do Espírito Santo à Paraíba; as demais vivem em todos os estados brasileiros e algumas se fazem abundantes, inclusive em áreas urbanas. Por isso, é importante diferenciar as espécies mais “perigosas” em duas categorias: potência do veneno e frequência de acidentes.
As jararacas são responsáveis por mais de 90% dos acidentes no Brasil; veneno da coral é mais potente
Arte/Giulia Bucheroni
Acidentes ofídicos
De acordo com o herpetólogo Willianilson Pessoa, quase 99% dos acidentes ofídicos no Brasil são causados por jararacas. “O alto índice é justificado por uma série de fatores combinados: a ocorrência das espécies em diversos tipos de habitat, a abundância de indivíduos e o comportamento arisco de defesa”, explica. “Elas não atacam, elas se defendem. No entanto, são mais agressivas: se chegar muito perto, ou mesmo tocar no animal, ele dá o bote e inocula a peçonha”.
Com ação proteolítica, o veneno das jararacas é composto por enzimas que degradam a musculatura, causando hemorragias e necrose local.
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Cascavel está no segundo lugar da lista de serpentes mais perigosas em termos de acidentes
Willianilson Pessoa/Arquivo
No segundo lugar do ranking de serpentes mais perigosas estão as cascavéis, responsáveis por aproximadamente um por cento dos acidentes no Brasil. “Elas também são abundantes no País, no entanto, menos comuns que as jararacas, porque optam por locais mais secos ou interior das matas. Ou seja, as espécies ocorrem mais no interior dos estados do que nas captais, o que reduz a frequência de acidentes”, detalha Willianilson.
A lista segue com a surucucu-pico-de-jaca, a maior cobra peçonhenta das Américas e a maior víbora do mundo. “Os acidentes com a espécie, chamados de laquéticos, são bem menos comuns. Isso porque a espécie é mais discreta, ameaçada de extinção, relativamente rara e de difícil observação na natureza. Costuma viver mais conservada, em localidades restritas”, diz.
Por último, mas não menos preocupante, estão as corais-verdadeiras. “Elas estão no fim da lista graças ao comportamento, que não é tão agressivo. Se acontecer de alguém se aproximar da serpente ela, provavelmente, vai fugir ou ficar imóvel. Por mais que existam muitos encontros com corais, a questão do comportamento diminui o número de acidentes, que hoje representa 0,1% do total de casos no Brasil”, detalha Pessoa, que reforça. “No entanto, quando espécies de coral-verdadeira efetivamente inoculam o veneno no homem, o sinal de alerta se acende”, diz.
Surucucu-pico-de-jaca é vista com menos frequência na natureza
Willianilson Pessoa/Arquivo
Veneno mais potente
Quando o assunto é potência do veneno a lista de espécies perigosas se inverte e o primeiro lugar é garantido, absolutamente, pelas corais. “O veneno tem reação neurotóxica, que atinge o sistema nervoso e interrompe todos os comandos dados pelo cérebro. As chances de sobrevivência são de 50%, com possibilidade de sequelas severas”, explica o especialista.
Além de muito potente, o veneno é difícil de ser neutralizado. “Diferente de acidentes com outras serpentes, que em casos extremos podem ser tratados com um soro polivalente, o veneno das corais-verdadeiras só é neutralizado com um soro específico”, reforça.
Veneno das corais-verdadeiras é o mais potente entre os grupos de serpentes peçonhentas
Willianilson Pessoa/Arquivo
Coral-verdadeira e falsa-coral são extremamente parecidas e confundem predadores
A lista segue invertida, com a surucucu-pico-de-jaca como a segunda serpente com o veneno mais poderoso, não só pela composição, mas pela quantidade. “É uma espécie muito grande, por isso, a quantidade injetada também é maior. No caso de acidentes, o veneno tem ação hemorrágica, causa necrose e insuficiência renal”, diz.
No terceiro e quarto lugar estão as jararacas e as cascavéis, respectivamente “As pessoas que chegam a óbito por picada de cascavel, na maioria das vezes têm problemas sistêmicos, como insuficiência renal”.
O soro polivalente é capaz de neutralizar o envenenamento por jararacas e cascavéis
Willianilson Pessoa/Arquivo
Ferramenta de caça
Evolutivamente a função do veneno não é defender a serpente de um ataque, mas sim, garantir o almoço e a janta, além da boa digestão. “A peçonha foi selecionada para abater presas e pré digeri-las: as enzimas do veneno vão digerindo o alimento e, quanto mais rápido a serpente se livrar daquele volume na barriga, melhor”, detalha Willianilson.
Ele explica que ao longo de milhares de anos as características da peçonha de algumas espécies também evoluíram e prol da sobrevivência. É o caso das jararacas encontradas na Ilha de Queimada Grande (SP). “Diferente de outras regiões, as aves são as únicas opções de alimento para serpentes que vivem nas ilhas. Para garantir que, ao ser picada, a presa não voaria longe – com perigo de cair no mar; os indivíduos passaram a produzir venenos mais potentes e, com o passar dos anos, compartilhar a característica com as futuras gerações”.
Na ilha só ficou cobras com veneno muito potente. Quanto maior a potência, maior o tamanho das presas, mais garantida é a predação e mais rápida a digestão
Jararacuçu é a maior jararaca do Brasil; espécie é mais estressada e se defende dando o bote
Willianilson Pessoa/Arquivo
Esqueça mitos: procure ajuda de especialistas!
“Pressa” e “calma” possuem significados totalmente contrários, mas de certa forma funcionam bem na condução de um acidente ofídico. Isso porque a principal e mais importante orientação é levar o acidentado ao hospital, no entanto, o trajeto deve ser feito de maneira lenta e cautelosa. “A pessoa que foi picada precisa ficar parada, ou se estiver sozinha deve se locomover lentamente. Quanto mais rápido andar, ou até correr, mais vezes por minuto o coração bate, a circulação do sangue é acelerada e, consequentemente, o veneno é dispersado pelo corpo com mais rapidez. Por isso orientamos acalmar a pessoa, explicando que se tudo for feito de forma correta haverá tempo suficiente para procurar ajuda, sem a necessidade de se desesperar”, explica o biólogo.
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Jararaca-pintada (Bothrops diporus) vive em ambientes secos, em borda ou interior de florestas
Willianilson Pessoa/Arquivo
As recomendações seguem com passos simples, mas cruciais no primeiro socorro. “Diferente do que muitos acreditam ser o certo, não se deve, de modo algum, fazer torniquetes no local da picada. Ao prender a circulação do sangue, o veneno age localmente com uma potência muito maior e as chances de necrose aumentam”, diz.
“Outra dica importante é manter erguido o membro que foi picado e jamais tentar sugar o veneno. Ao fazer isso, a pessoa pode se envenenar engolindo as toxinas, ou através da absorção da peçonha pela boca”, reforça Pessoa, que enfatiza a principal orientação: procure o hospital mais próximo e não acredite em simpatias ou receitas caseiras. “Medicamentos caseiros NÃO funcionam, nem cachaça, nem leite. Essas histórias vêm de mitos antigos, reproduzidos há muitos e muitos anos”.
Urutu-cruzeiro é temida pelo poder do veneno
Willianilson Pessoa/Arquivo
Preciso levar o animal responsável pelo acidente?
A resposta é não, com letras garrafais! “Afinal, no desespero de ajudar o acidentado, uma segunda pessoa pode também ser picada ao tentar capturar ou matar o animal, que nesse momento está super estressado. Hoje em dia todo mundo tem um celular com câmera, então em casos de acidente basta registrar o animal. Fotos e vídeos serão suficientes para o médico identificar o tratamento correto”, destaca Willianilson.
“Se a pessoa estiver sozinha e não conseguir fotografar, nós orientamos que ela se atente aos detalhes do animal como a cor, formato da cabeça e desenhos no corpo. Essas são informações importantes para identificar o gênero da espécie”, finaliza.