Conheça as mariposas que 'carregam' Saturno nas asas


Família Saturniidae reúne algumas das mariposas mais chamativas do Brasil; “Fadas da noite” encantam pelo mistério e beleza. Fase adulta das mariposas saturnídeas duram apenas de 5 a 12 dias
Luciano Lima
Desde que me mudei para o meu sítio tenho prestado muito mais atenção no céu. A poluição luminosa torna as estrelas, planetas e outros astros mais “tímidos” nas cidades. Já aqui na Serra da Bocaina, próximo à divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, a distância da civilização faz com que seja simplesmente impossível ignorar o firmamento. Os mesmos binóculo e telescópio que uso para passarinhar também são úteis para observar os astros. A pouca cobertura de nuvens e a maior duração da noite faz do outono e do inverno as melhores estações do ano para admirar o céu noturno e sempre que tenho um tempinho tenho ido pro quintal ficar de olho nos astros e de ouvido atento nas corujas e bacuraus.
Além das muitas constelações facilmente visíveis nessa época do ano, alguns planetas também podem ser observados. Uma dica para facilitar a localização dos astros é utilizar alguns dos muitos aplicativos para celulares com mapas estelares. Faça o download de um deles e procure por Saturno, um dos meus astros favoritos e o segundo maior planeta do sistema solar. Ainda me lembro a primeira vez que, com o auxílio de um telescópio, consegui ver os anéis de Saturno. Fui tomado por aquela sensação de “nossa! eles existem mesmo”, um momento de empolgação tão grande quanto observar um passarinho que eu nunca tinha visto antes.
Os anéis de Saturno foram observados pela primeira vez em 1610, por Galileu Galilei, mas a resolução do seu telescópio não permitiu que o famoso cientista enxergasse muitos detalhes e, ao invés de um anel, Galileu julgou estar vendo duas alças ao redor do planeta. Mas não é apenas no firmamento que podemos admirar os anéis de Saturno. Como na famosa música “Desculpa o Auê”, de Rita Lee, um grupo de insetos parece ter conseguido “roubar os anéis de Saturno” e após o cair da noite, mesmo sem telescópio, com um pouco de sorte é possível observar os anéis de Saturno voando ou pousados próximo a alguma lâmpada.
Ciência ainda estuda porque mariposas são atraídas por luzes artificiais
Luciano Lima
O tamanho avantajado e os padrões de cores e desenhos elaborados das asas de muitas de suas espécies, fazem das mariposas saturnídeas (família Saturniidae) um dos grupos mais chamativos de lepidópteros (ordem de insetos a qual pertencem mariposas e borboletas). Seu nome “extraterrestre” foi inspirado pelos olhos falsos presentes na asas traseiras de muitas espécies, que geralmente são mantidos ocultos, mas costumam ser exibidos quando a mariposa é perturbada, aparentemente servindo para afugentar potenciais predadores. Em algumas espécies os olhos falsos são rodeados por um anel, fazendo lembrar o planeta Saturno.
No Brasil, a família Saturniidae está representadas por cerca de 400 espécies, incluindo algumas das maiores e mais belas mariposas do país. Ao invés de olhos falsos, algumas espécies, como as mariposas do gênero Rothschildia, possuem janelas transparentes nas asas, cuja função, além de encher nossos olhos de admiração e curiosidade, ainda é desconhecida pela ciência. Esqueça a palavra “bruxa”, que muita gente usa pra se referir a esses insetos. As mariposas saturnídeas estão mais para fadas da noite.
Mas toda essa beleza é efêmera. Na fase adulta, diferente das outras mariposas, as representantes da família Saturniidae não apresentam aparelho bucal funcional, ou seja, basicamente não tem boca e, assim, são incapazes de se alimentar. Por isso, embora possam viver mais de dois meses como lagartas e outros mais de dois meses como pupa, a fase adulta das espécies do grupo geralmente dura apenas entre cinco e doze dias, sendo focada somente na reprodução da espécie, através de ações como busca de parceiro, cópula e postura dos ovos (no caso das fêmeas).
Olhos falsos se destacam em espécies da família Saturniidae
Luciano Lima
Os entomólogos (profissionais especialistas em insetos) ainda não tem uma explicação definitiva para o fato das mariposas serem atraídas por luzes artificiais. Mas desconfia-se que, assim como outros insetos noturnos, elas utilizem a lua para se localizar durante a noite e, por isso, são atraídas pelas lâmpadas. E é na parede logo abaixo da lâmpada da minha varanda, depois do cair da noite, onde algumas vezes, mesmo sem olhar pro céu, eu encontro um pedacinho do universo nas asas das mariposas.
* Luciano Lima é biólogo da equipe do Terra da Gente.