Estudo da Unicamp alerta para possível reinfecção com variantes da Covid-19 'menos preocupantes'


Pesquisa identificou as linhagens B1128 e B1133 em quatro profissionais do HC. Para pesquisador, descoberta mostra necessidade de manter os cuidados mesmo em cenários onde mutações mais letais estejam controladas. Primeira autora de estudo explica principais descobertas sobre casos de reinfecção
Um estudo realizado pelo Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes da Universidade de Campinas (SP) identificou quatro casos de reinfecção pela Covid-19 em profissionais da saúde que atuam no Hospital de Clínicas (HC). As novas infecções, porém, foram causadas por variantes consideradas de “não preocupação”, o que traz um alerta sobre a possibilidade de contrair o vírus novamente mesmo em cenários onde as linhagens mais agressivas estejam controladas.
De acordo com o professor do Instituto de Biologia e coordenador do laboratório, José Luiz Módena, são categorizadas como de “não preocupação” as linhagens do Sars-CoV-2 que não apresentam mutações capazes de gerar uma maior transmissibilidade ou letalidade. Dentre os pacientes analisados no estudo, as variantes encontradas foram a B1128 e B1133, que circulam no Brasil desde 2020.
Variante P.1 representa 73,9% das amostras da regional de Campinas analisadas em estudo
“Chama atenção que elas têm uma mutação numa região terminal na proteína de superfície que não é de preocupação, mas que pode, porventura, estar envolvida no mecanismo de escape dos anticorpos formados contra os vírus que circulavam antes. É um relato, então estamos mostrando que pode acontecer, provavelmente é um evento muito raro, mas que temos que monitorar”, afirma Módena.
Investigação sobre casos de reinfecção é conduzida pelo Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes
Liana Coll/Unicamp/Divulgação
‘Driblando’ a resposta imune
O estudo, publicado pela revista Emerging Infectious Diseases, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, indica que é possível um paciente ser reinfectado por uma linhagem semelhante à da primeira vez em que contraiu o vírus, não sendo necessária a interferência de uma variante nova e mais agressiva.
“Uma das coisas que a gente hipotetiza é que esse vírus consegue interferir com a nossa capacidade de gerar uma resposta imune prolongada, pelo menos numa parte das pessoas, interferindo, inclusive, com a capacidade do nosso corpo de formar células imunológicas de memória”, analisa.
Módena destaca que o fenômeno pode ocorrer principalmente entre aqueles que têm alta exposição ao vírus, como é o caso dos profissionais de saúde. Além disso, o docente afirma que, nos quatro casos analisados, os pacientes tiveram sintomas leves, mas ainda podiam disseminar o vírus para outras pessoas.
José Luiz Módena, professor do Instituto de Biologia e coordenador do laboratório
Antoninho Perri/Unicamp/Divulgação
Reinfecção comprovada
Para comprovar que os casos envolvidos na pesquisa tratavam-se, de fato, de reinfecções, a equipe do laboratório trabalhou com amostras que foram colhidas em um intervalo de pelo menos 45 dias entre a primeira e a segunda infecção. Além disso, as quatro pacientes tiveram um teste molecular e sorológico com resultado negativo entre os dois exames.
Foram analisados testes de quatro mulheres, sendo três enfermeiras e uma colaboradora do HC, com idades entre 40 e 61 anos. Todas apresentaram sintomas brandos nas duas infecções e nenhuma precisou ser hospitalizada, sendo que apenas uma tinha bronquite crônica. Veja detalhes na tabela abaixo.
Características das quatro pacientes envolvidas no estudo
Ainda segundo os pesquisadores, todas as trabalhadoras de saúde envolvidas no estudo continuaram a utilizar o mesmo tipo de equipamentos para proteção individual (EPIs) após se recuperarem da primeira infecção, conforme recomendado pelo Ministério da Saúde.
“Temos aprendido muito e conseguido, em partes, diminuir o impacto da doença, mas se as pessoas e os governos não remarem para o mesmo lado, por mais que a ciência faça, esse problema ainda vai persistir. As pessoas precisam continuar conscientes de que devem se cuidar, porque isso é um ato de respeito com o seu corpo, mas também com os outros e com as pessoas que você ama”, finaliza o pesquisador.
Pacientes são trabalhadoras da área da saúde que atuam no HC da Unicamp
Lícia Mangiavacchi/EPTV
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