Filme inspirou engenheiro a fotografar a natureza


Fábio Justus pôde conhecer mais a fundo o universo da observação e da fotografia depois de assistir “O Grande Ano”; registros reúnem belas espécies. O tangará-dançarino (Chiroxiphia caudata) habita as matas densas do sul da Bahia, do sudeste e sul do Brasil, do Paraguai e nordeste da Argentina
Fábio Justus/Acervo Pessoal
Brad, Kenny e Stu são três homens em diferentes fases da vida que estão passando por crises. Eles têm em comum a paixão por pássaros e decidem entrar numa competição para saírem da rotina: identificar o maior número possível de espécies em um ano.
A sinopse acima refere-se a comédia norte americana “O Grande Ano”, composta por um famoso trio de Hollywood: Jack Black, Owen Wilson e Steve Martin.
O filme de 2011 não só proporcionou gargalhadas para o engenheiro civil Fábio Justus, como também despertou um hobby que mudaria para sempre a relação do paranaense com a natureza: a fotografia de aves.
O observador de aves já registrou mais de 240 espécies.
Fábio Justus/Acervo Pessoal
“Lembro que a história ensinava muito sobre a paixão pelos pássaros e uma conversa entre os personagens me encantou de um jeito diferente. Eles falavam sobre o registro de uma ave que fazia o maior trajeto migratório e a reflexão era de que aquele animal já havia visto e presenciado mais paisagens e acontecimentos do que todos nós. Achei simplesmente incrível e foi aí que de fato decidi comprar uma câmera e começar a fotografar em 2012”, conta.
Entretanto, o fascínio pela observação começou um pouco antes. Nascido em Curitiba, mas morador de Ponta Grossa desde a infância, Fábio revela que passou a se aproximar mais e a valorizar o contato com a Mata Atlântica sulista quando sentiu a necessidade de procurar refúgio em meio à rotina estressante da faculdade e do trabalho, isso em 2008.
Foi nessa época que, em um final de semana em Morretes, cidade com a maior variedade de espécies de aves do Paraná, um encontrou chamou sua atenção. “Estava comendo em um restaurante que colocava frutas para os pássaros e foi quando vi de perto, a poucos metros, a gralha azul, ave símbolo do meu estado”.
A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) é uma ave muito inteligente. Sua comunicação é bastante complexa consta de pelo menos 14 termos vocais (gritos) bem distintos e significantes.
Fábio Justus/Acervo Pessoal
A curiosidade pelo animal incentivou a compra de livros sobre a avifauna local e sobre o bioma da Mata Atlântica no geral, o que foi primordial para o sucesso na fotografia anos depois.
“Passei a me dedicar a estudar sobre as espécies, mas principalmente lendo muitos livros. Anos depois, com o filme e ao entrar em um grupo de observadores em uma rede social comecei com a fotografia e levei o hobby mais a sério, saindo a campo para registrar as espécies diferentes que encontrava. Não sou fotógrafo, mas com certeza sou um entusiasta da fotografia”, confessa.
A correria do dia a dia novamente o afastou das matas por um tempo, mas o engenheiro pôde voltar a se dedicar a atividade com a chegada da pandemia. Ele conta que o tempo que passa na natureza ajuda muito a lidar com a ansiedade. Além disso, Fábio notou grande diferença na própria motivação das fotos comparado a anos atrás.
A saíra-preciosa (Tangara preciosa) se alimenta principalmente de frutos, mas também de artrópodes.
Fábio Justus/Arquivo Pessoal
No começo eu era aficionado por sair e encontrar o maior número de espécies novas, já hoje em dia conseguir registros melhores das espécies que eu gosto é muito mais especial
Não à toa, a foto favorita é de uma saíra-preciosa. Justus afirma que a ave não é tão difícil de ser vista na região, mas uma boa foto dela é mais complicado. “Eu encontrei a espécie em 2012, só que somente em 2021 que fui conseguir um registro que realmente gostei, sem folhas na frente e com uma luz legal. Foi algo super especial”.
Na lista dos registros preferidos também se encontra a foto da própria gralha-azul. Já em uma viagem a trabalho para o Mato Grosso, os flagrantes de um beija-flor-chifre-de-ouro e do voo de um casal de arara-vermelha-grande são guardados com carinho no acervo pessoal do observador.
O segredo para bons cliques e, acima de tudo, para bons encontros com as aves na mata, segundo Fábio, é aprender a ouvir. “Pode parecer estranho, mas o segredo está no ouvido e não nos olhos. É preciso estudar e aprender a reconhecer os cantos na florestas para aumentar as chances de atrair esses animais, só que isso não é fácil e até hoje estou aprendendo.”, finaliza.
O chifre-de-ouro é uma espécie típica das áreas abertas do Cerrado e florestas de galeria.
Fábio Justus/Acervo Pessoal