Ilustração é prática secular ainda indispensável para a ciência


Primeiro registro da fauna brasileira está em um mapa de 1502; desenhos científicos eram iguarias da realeza. Ilustrações de natureza foram base para descobertas na ciência
Quando pensamos em registros científicos da fauna e flora rapidamente imaginamos fotografias e vídeos em alta resolução, afinal, existem lentes com zoom muito potente, máquinas automáticas que capturam o movimento nas matas e recursos que garantem registros microscópicos.
No entanto, mesmo com tamanha tecnologia disponível, a ciência conta ainda com um processo antigo para a constatação de descobertas e pesquisas sobre espécies: a ilustração.
“A ilustração científica é feita com a preocupação em mostrar detalhes que serão utilizados para uma descrição, um artigo ou uma publicação, por isso, é importante para diversos momentos da ciência: auxilia na descrição de estruturas, locais de observação e características específicas que uma câmera fotográfica não consegue captar, seja pela luz, distância ou ângulo de observação” explica Luciano Lima.
Primeira ilustração da fauna brasileira está em um mapa de 1502
Acervo/Das Coisas Naturais do Brasil
A prática secular é crucial não só para conhecer a história do estudo da biodiversidade brasileira. “Uma das primeiras imagens produzidas pelos europeus de uma espécie brasileira está em uma mapa de 1502. Esse mapa trás um conjunto de araras com uma floresta ao fundo e, embora não tenha sido colocada ali como uma ilustração científica, passa a ser um testemunho científico que indica a presença da arara-canga no Brasil, sendo ao que parece o primeiro animal ilustrado do País”, diz.
Os desenhos científicos também foram cruciais para a publicação de um dos primeiros livros de ornitologia do mundo, datado de 1555. “Na obra tem espécies como tiê-sangue, papagaios e xexéu. Esses primeiros relatos têm uma importância muito grande. Inclusive, graças a essas ilustrações a gente sabe da existência de espécies que hoje são extintas em determinados lugares”, completa Lima.
Ilustrações garantem riqueza de detalhes crucial para estudo das espécies
Acervo/Das Coisas Naturais do Brasil
A admiração de cientistas pela fauna e flora brasileiras não era exclusividade dos estrangeiros. No final do século 19 começam a surgir personagens nacionais importantes para a ilustração científica.
“Nessa vasta lista podemos destacar o João Barbosa Rodrigues, que veio a ser diretor do Jardim Botânico do Rio, botânico de mão cheia, cientista e ilustrador super renomado, famoso pelas ilustrações de orquídeas que te deixam em dúvida se são desenhos científicos ou obras de arte”, comenta Luciano. “Já no comecinho do século 20 temos o Benedito Raimundo da Silva, artista que se apaixona pelas borboletas e faz um livro sobre as espécies brasileiras”, completa.
O Brasil é um país muito carente de heróis, muito carente de personagens, e a gente tem essas figuras que acabam ficando esquecidas pela história. Muitas delas dedicaram a vida para isso
Considerados obras de arte, os desenhos eram base importante para descobertas
Acervo/Das Coisas Naturais do Brasil
Arte e ciência
Cada vez mais as ilustrações científicas ganham espaço fora dos livros de biologia e artigos acadêmicos: borboletas, aves, répteis e diversas espécies de plantas passaram a estampar peças de roupas e itens de decoração.
E não se engane: transformar a ciência em ‘moda’ é um movimento muito positivo para a conservação. “A gente sempre fala disso, já é batido, mas é verdade: no final, só conservamos o que amamos, e só amamos o que conhecemos. Se ninguém conhece, ninguém dá valor. Por isso, o interesse das pessoas por essas ilustrações é de extrema importância. Ao adquirir uma gravura, estão adquirindo conhecimento”, reforça Luciano, que coordena o projeto ‘Das Coisas Naturais do Brasil’, uma galeria itinerante – e também virtual, que reúne ilustrações científicas resgatadas durante mais de 15 anos, tempo que o ornitólogo dedica à curadoria do material.
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“Muitas dessas imagens estão sendo mostradas pela primeira vez. São imagens de livros pouco acessíveis, antigos, obras que muitas vezes não estão nem no Brasil, conhecidas por poucos acadêmicos. A ideia é popularizar a natureza brasileira, unindo arte e história”, completa.