Jiboia mais rara do mundo é solta depois de seis meses de monitoramento


A serpente retornou para a natureza na região do Vale do Ribeira; pesquisadores ainda acompanham o animal de maneira remota. Jiboia mais rara do mundo é solta depois de seis meses de monitoramento
No final de outubro de 2020 uma jiboia do ribeira (Corallus cropanii) foi vista viva pela segunda vez em três anos na região do Vale do Ribeira, em Sete Barras (SP), em área próxima ao Parque Estadual Intervales. A espécie que chegou a ficar 64 anos desaparecida é conhecida como a jiboia mais rara do mundo, endêmica dessa região da Mata Atlântica e está ameaçada de extinção.
Desde o seu encontro, “Esperança”, como foi batizada pela Comunidade do Guapiruvu, permaneceu em cativeiro para análises clínicas e coletas de dados científicos, já que pouco se sabe acerca da raríssima espécie.
A herpetóloga Daniela Gennari conta que os pesquisadores tentaram deixar a serpente o mais confortável possível durante o período de monitoramento. “ O recinto tinha aquecedor, ventilador e controle de umidade e temperatura. Buscamos minimizar ao máximo o estresse e procuramos replicar o ambiente externo. Quando estava chovendo, por exemplo, utilizamos o borrifador para fazer chover dentro do terrário. E percebemos o quanto isso é importante, porque acabava estimulando a Esperança a fazer suas necessidades, e a deixava mais ativa”.
Esperança logo após a soltura.
Divulgação Projeto Jiboia do Ribeira
O biólogo e coordenador do projeto “Jiboia do Ribeira” Bruno Rocha explica também que foi realizado uma microcirurgia: “Foi uma correria para conseguirmos o melhor veterinário e anestesista para conseguirmos fazer a cirurgia de implante do radio-transmissor. Era necessário para podermos acompanhar a Esperança na natureza depois de soltura e foi um sucesso, ela se recuperou super bem”.
Ao todo, foram cerca de seis meses aos cuidados dos pesquisadores, guarda-parques e demais colaboradores do projeto até que no dia cinco de maio ela retornou para o habitat natural. Para isso, foram reunidos representantes da comunidade, Projeto Jiboia do Ribeira, Projeto Ciência Cidadã, AGUA (Associação de Economia Solidaria e de Desenvolvimento Sustentável do Guapiruvú), Projeto Mãos que Protegem, PEI, Fundação Florestal e Projeto Escalas da Biodiversidade do Instituto Butantan.
Durante os próximos meses, a serpente será monitorada por rádio telemetria para acompanhamento e mais coleta de dados. Desde a soltura, Esperança segue saudável e se adaptando novamente a vida livre. No momento, está parada há cerca de 4 dias na copa de uma árvore a 30 metros de altura.
Características das jiboias do ribeira (Corallus cropanii).
Arte TG
“Agora eu sigo grudado no aparelho de radio para continuar acompanhando ela e seguir tentando desvendar os mistérios da vida da espécie. O mais importante é que prova que a educação ambiental é eficaz e espero que traga esperança não só para essa espécie, mas para toda mata atlântica”, revela Rocha.
Isso porque a comunidade do Guapiruvu se tornou a guardiã das jiboias-do-ribeira depois de um trabalho de educação ambiental dos biólogos, que formaram uma parceria com os moradores e com o Parque Estadual Intervales através de diversas ações ambientais. “São eles os responsáveis pelo encontro dessa e de todas as outras. Nós fazemos a parte técnica-científica, capacitando-os como cientistas cidadãos, levando informações sobre essa espécie e a importância de preservar a biodiversidade local”, finaliza Daniela.
O plano para o futuro é, paralelo ao monitoramento da Esperança, ampliar as atividades educacionais para outros bairros próximos ao Guapiruvu onde outras Corallus cropanii já foram registrados sem vida.
Vídeo mostra jiboia mais rara do mundo encontrada em Sete Barras (SP)