Mães dedicadas ou parasitas cruéis? Conheça a curiosa reprodução das vespas


Animais são capazes de paralisar insetos maiores para garantir sucesso na reprodução. Vespas-caçadoras paralisam insetos maiores que elas para garantir sucesso na reprodução
Quando escuta o termo “vida selvagem”, a mente de muita gente viaja para lugares como a Amazônia ou para as distantes savanas africanas. De fato, estes lugares são palcos a céu aberto de infinitos espetáculos da natureza. Mas assim como um artista se apresentando ao vivo em um bar de esquina pode te surpreender bastante, um olhar mais atento na natureza da praça da esquina da sua casa, ou mesmo do seu jardim, pode revelar cenas e personagens impressionantes do show da vida, entre elas mães aparentemente cruéis, mas muito dedicadas.
Dia desses, enquanto eu regava as plantas no jardim, observei uma pequena vespa levantar voo do chão. Continuei a regar e poucos segundos depois ela voltou a pousar no mesmo lugar de onde tinha voado, era uma vespa-de-cintura-de-fio, pertencente ao gênero Eremnophila. Me esqueci das plantas por um momento e comecei a observar e a registrar a cena com o celular.
Vespas-caçadoras depositam seus ovos em insetos ou aranhas
Luciano Lima/TG
Com uma força surpreendente, a vespa moveu, aparentemente sem dificuldades, uma pedra que era quase do tamanho dela, revelando um pequeno buraco no solo. Ela então desapareceu completamente dentro do buraco, de onde começaram ser ejetados grãos de areia, revelando ser ela a responsável pela pequena obra de engenharia.
Junto com as formigas e as abelhas, as vespas formam uma numerosa ordem de insetos, chamada Hymenoptera. Mais de 90% dos himenopteros são vespas, o que faz delas um dos grupos mais numerosos de insetos. Embora sejam importantes polinizadoras, as vespas desempenham um outro papel chave na natureza, mas desconhecido por muita gente. As larvas da maioria de suas espécies são carnívoras e, por isso as vespas são importantíssimas no controle biológico de insetos e aranhas, sendo inclusive utilizadas como “inseticidas vivos”, auxiliando no controle de pragas agrícolas.
Flagrante mostra dedicação da ‘mamãe’ vespa no processo reprodutivo
Luciano Lima/TG
Muitas vespas são parasitóides, termo que lembra muito a palavra parasita, mas tem uma diferença importante. Parasitas geralmente não matam seus hospedeiros, enquanto os parasitóides quase sempre levam seu hospedeiro a morte. Após fecundadas pelo macho, as fêmeas de vespas-parasitóides saem em busca de hospedeiros, outros insetos ou aranhas, dependendo da espécie.
Quando encontram, se aproximam de forma cautelosa e, rapidamente, depositam um ou mais ovos sobre alguma região específica do corpo da vítima, que continua a levar a vida como se nada tivesse acontecido, sem saber que a partir daquele momento está, literalmente, com os dias contados.
Um outro grupos de vespas, incluindo as vespas-de-cintura-fina, são classificadas como vespas-caçadoras. Elas também depositam seus ovos em insetos ou aranhas, novamente dependendo da espécie, mas são mães um pouco mais dedicadas e constroem um “berço” para o desenvolvimento das suas larvas, ou uma “sepultura”, na visão do hospedeiro. Geralmente escavam na madeira ou no próprio solo um túnel e concluída a obra saem em busca de uma vítima.
Após eclodir a larva da vespa irá se alimentar lentamente do seu hospedeiro
Luciano Lima/TG
Diferente das vespas-parasitóides, ao encontrar um hospedeiro as vespas-caçadoras não depositam seus ovos imediatamente. Ao invés disso, dão uma ferroada com veneno paralisante na vítima que logo fica imobilizada e é levada até o ninho onde será enterrada junto com um ovo da vespa. Após eclodir a larva da vespa irá se alimentar lentamente do seu hospedeiro, ingerindo inicialmente partes não vitais para evitar que ele morra rapidamente. Posteriormente, irá passar pela fase de uma pupa e dará origem a uma vespa adulta que irá emergir do ninho.
Depois de sair do buraco que havia escavado no meu jardim, a pequena vespa-de-cintura-fina voou novamente e, menos de um minuto depois, retornou voando com alguma dificuldade. Pousou a alguma distância do buraco e pude reparar que entre as patas carregava uma rechonchuda lagarta verde. Soltou a lagarta ao lado da entrada do túnel, onde entrou novamente e deu uma inspecionada final.
A lagarta paralisada, as vezes mexia vagarosamente a cabeça e não ofereceu nenhuma resistência quando foi puxada para dentro do túnel, de onde pouco depois a vespa emergiu sozinha e com algumas pedras tampou a entrada do túnel.
Parece cruel, mas seja no jardim ou em meio a floresta amazônica, para admirar a mãe natureza em suas múltiplas formas muitas vezes, além de olhar atento, é bom lembrar também de um trecho da famosa música “Um Violeiro Toca”, composta por Almir Sater: “a natureza é isso sem medo, nem dó, nem drama”.
*Luciano Lima é ornitólogo e faz parte da equipe do TG.