Não é o que parece: vídeo 'fofo' de preguiça em barco na verdade revela animal sob intenso estresse


Cena viralizou como se a preguiça estivesse “brincando” com a água; especialista faz alertas. Vídeo ‘fofo’ de preguiça brincando com a água reflete animal estressado e com medo
Você talvez tenha visto nas últimas semanas um vídeo de uma preguiça sentada em um barco, “brincando” com a água do rio. A imagem foi replicada como sendo “a cena mais fofa que você verá hoje” nas redes. Mas de fato ocorria na cena não traduz o que parece e o compartilhamento de flagrantes assim sem o devido conhecimento pode dar abertura para uma relação muito preocupante entre humanos e animais.
Embora o vídeo tenha viralizado e não seja possível saber a localização precisa, o animal que aparece na imagem é uma preguiça do gênero Bradypus, do qual são conhecidas popularmente as preguiças-de-três-dedos e as preguiças-comuns
O especialista explica que muitos pensam que somente os humanos são inteligentes e negam a inteligência dos animais ou suas emoções
Reprodução/Redes Sociais
Andrews Nunes, biólogo e mestrando em psicologia experimental da USP e divulgador científico através da página Comportamento Primatológico, viu a imagem e logo decidiu se posicionar.
“A preguiça estava molhada dentro do barco e, como estes animais são ótimos nadadores, muito provavelmente, ela estava nadando para atravessar o rio e alguém a viu e resolveu tirá-la da água. Ela está claramente estressada e, na tentativa de sair do barco, coloca os braços para fora para tentar voltar para água. Mas como o barco estava rápido e a preguiça tem os movimentos lentos, ela não conseguia sair dali”, descreve o especialista.
Para quem olha de fora pensa ‘Oh, que fofo, ela brincando com a água’ quando, na verdade, a preguiça está sob estresse. Outro problema é que o animal foi afastado do local de origem
No vídeo divulgado, uma das pessoas no barco também acaricia a preguiça, um comportamento inadequado e que pode gerar incidentes relacionados aos animais silvestres. “É normal admirarmos a beleza dos animais. Entretanto, o problema nesse caso é quando o animal está se mostrando estressado e o seu comportamento é entendido, de forma equivocada, como algo positivo”, define Nunes.
O contato com estes animais deve ser sempre feito por profissionais; pessoas comuns não possuem o treinamento adequado para resgatar ou mover o animal para outras áreas
Reprodução/Redes sociais
A identificação de características humanas, como pensamentos, consciência e motivações em animais, ganhou ainda mais espaço com as redes sociais. Mas esse apreço e constante afeto é bem direcionado a alguns grupos.
“Quando vemos uma serpente, a tendência é a de sentirmos medo e querermos nos afastar. Quando vemos um filhote de cachorro, de gato, ou até mesmo de primatas, a tendência é de querermos abraçar, pegar esses animais, pois evolutivamente tivemos uma maior proximidade com eles”, descreve o biólogo fazendo referência ao grupo dos mamíferos.
Partindo dessa lógica, a relação torna-se ainda mais intensa com os primatas. Macacos e saguis, parentes próximos de humanos e organizados em sociedades tão complexas quanto as nossas, tendem a ser ainda mais humanizados.
Para domesticação, alguns primatas têm até seus caninos arrancados para evitar que mordam
Reprodução
“Há vídeos e fotos de primatas vestindo roupinha e comendo comidas que não fazem parte de sua alimentação. Estes vídeos, por despertar essa ‘fofura’, podem estimular as pessoas a procurarem primatas para serem domesticados, fazendo com que estes animais sofram na mão dos traficantes, além de serem tirados do habitat natural muito jovens”, descreve o administrador da página Comportamento Primatológico.
A tendência de olhar os animais silvestres sob a ótica humana até mesmo aproxima as pessoas do risco de ataque. Quando primatas mostram os dentes parecendo um sorriso, na verdade, alertam que estão com medo e se sentindo ameaçados. Quando preguiças parecem ‘acenar’ aos humanos que as resgataram, na realidade, estão armando o bote para bater com as garras e se defender.
Pessoas se aproximam de animais silvestres achando que o comportamento indica um convite ou uma brincadeira, mas o animal estava com medo ou estressado, como na imagem
César Cocco/ Arquivo Pessoal
“Penso que este nosso comportamento de colocar nossas emoções nesses animais é simplesmente pelo fato de querermos ser o centro de tudo, os melhores no que fazemos e, por isso, colocamos animais nessa posição humanizada. Temos que começar a tirar nossos próprios comportamentos destes animais e pensar como realmente são os comportamentos deles”, aponta Nunes.
O divulgador científico defende que a informação é a melhor ferramenta para evitar que esses conteúdos aparentemente “inofensivos” transmitam mensagens que se alinhem com o tráfico, com o excessivo contato com os animais silvestres e até com o manejo sem domínio dessas espécies.
“Não compartilhem fotos e vídeo de primatas com roupas ou em uma situação que não seja a natural desses animais. Busquem informações do que realmente está acontecendo nos vídeos ou fotos compartilhados nas redes sociais. E, se tiverem dúvidas, perguntem a um profissional da área”, conclui.
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