Nova lista de aves da Caatinga conta com 442 espécies


Número caiu em relação ao último documento de 2017; contagem antiga incluía espécies de território de transição. A arara-azul-de-lear está na nova lista e é considerada uma espécie endêmica da Caatinga.
Nailson Junior
Quando pensamos em uma listagem nova de espécies de determinado local é natural se esperar que um maior número de animais seja descrito em relação à última versão. Mas não foi isso que aconteceu com a mais recente lista de aves da Caatinga publicada no Journal of Arid Environments, no dia 19 de maio.
O trabalho do graduando em biologia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) Rafael Lima contabiliza 442 espécies de aves que ocorrem no bioma, 106 a menos do que na última lista.
“Na última lista de aves publicada para a Caatinga, em 2017,os autores incluíram todas as aves da região, totalizando 548 espécies de aves para o bioma. Entretanto, esse número incluía as aves dos enclaves. No meu estudo, eu demonstro que não há sentido biológico em considerar estes enclaves como parte da Caatinga e contabilizei apenas 442 espécies que ocorrem de fato na Caatinga”, explica Lima.
Os mapas comparam duas delimitações da Caatinga. A da esquerda foi usada no estudo que listou 548 espécies de aves e o da direita a que excluiu os enclaves.
Rafael Lima
O artigo científico se baseou na coleta de dados de ciência cidadã (em plataformas como eBird e Wikiaves), na literatura das aves da região e também em exemplares de museus.
Segundo o pesquisador, um enclave é um território cujas fronteiras geográficas estão inteiramente dentro dos limites de outro território. Ele afirma que nos biomas a formação deles é resultado principalmente das mudanças climáticas que, ao longo do tempo, fazem com que as florestas se expandam e retraiam.
Na Caatinga, os enclaves de florestas úmidas em meio ao clima semiárido foram formados há milhões de anos quando a Mata Atlântica e Floresta Amazônica estavam conectadas, funcionando como prova viva das rotas de conexão entre esses dois biomas. Hoje em dia os enclaves nas áreas da Caatinga são encontradas apenas em serras altas, como a Chapada da Diamantina.
“Como os enclaves no caso da Caatinga são restos de floresta úmida deixados pela conexão da Floresta Amazônica e a Mata Atlântica no passado não há porque classificá-los como parte da Caatinga e, portanto, as aves que ocorrem neles não são aves da Caatinga”, ressalta Lima.
O bico-virado-da-caatinga também está na lista. A espécie mede cerca de 16 centímetros e pesa cerca de 26 gramas.
Rafael Lima/Arquivo Pessoal
Um ótimo exemplo de enclave é a Serra de Baturité, no Ceará — uma serra com cerca de 1.100 metros de altitude coberta por floresta ombrófila em meio à Caatinga. É como um oásis no deserto, uma ilha de floresta úmida em meio ao semi-árido, que consegue se manter por causa do microclima favorável propiciado pela altitude. A biota que existe na floresta úmida desta serra é composta por plantas, aves, mamíferos, anfíbios e répteis de origem amazônica e atlântica, bem diferente da biota da Caatinga adjacente
Dessa forma, vários animais que ocorrem apenas nesses enclaves foram retirados da lista, como o uru (Odontophorus capueira) e a saripoca-de-gould (Selenidera gouldii). Sobre as 442 espécies restantes descritas pelo novo artigo científico pode-se dizer que 13 aves são típicas da Caatinga, sendo que duas são endêmicas (só ocorrem no bioma) e outras 11 são quase endêmicas, com apenas alguns pontos de ocorrência em outras áreas.
As endêmicas são a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) e ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) que mesmo extinta da natureza ainda consta na lista pelo consenso científico. Já entre as outras onze estão algumas espécies como a choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus), o bico-virado-da-Caatinga (Megaxenops parnaguae) e o tem-farinha-aí (Myrmorchilus strigilatus strigilatus).
O tem-farinha-ai também é conhecido como piu-piu e formigueiro-pintalgado.
Rafael Lima/Acervo Pessoal
Importância para a conservação
Para o pesquisador Rafael Lima, um número menor de espécies no bioma não significa que a importância da Caatinga é diminuída. “Agora temos conhecimento de quem são as espécies realmente da Caatinga com base em uma delimitação biologicamente relevante e isso possibilita estratégias de conservação mais corretas para a biota típica desse bioma”
Além disso, segundo Lima, estudos macroecológicos, biogeográficos e macroevolutivos de diversos animais agora podem se basear em dados mais corretos, o que pode gerar conclusões mais verídicas sobre padrões e processos biológicos dessas áreas.
Para finalizar, Rafael esclarece que: “A diversidade dos enclaves também é importantíssima, mas deve ser considerada em outro contexto e não tratada como parte da Caatinga”.
Esse é um macho da choca-do-nordeste, já que a fêmea possui uma coloração castanha intensa.
Rafael Lima/Arquivo Pessoal