Operação Black Flag: Justiça aceita pedido da PF para prorrogar prazo de conclusão do inquérito em 15 dias


Polícia afirmou que solicitação foi necessária para a ‘conclusão da análise da extensa quantidade de documentos e dispositivos apreendidos’. Investigação revelou esquema bilionário de fraudes em empréstimos. Agentes apreenderam R$ 1,2 milhão em espécie na casa de um dos investigados
Polícia Federal/Divulgação
A 1ª Vara de Justiça Federal de Campinas (SP) aceitou, nesta quarta-feira (26), o pedido da Polícia Federal para prorrogar, por mais 15 dias, o prazo de conclusão do inquérito da Operação Black Flag. De acordo com a corporação, a solicitação foi necessária para a “conclusão da análise da extensa quantidade de documentos e dispositivos apreendidos”.
A Black Flag, deflagrada no dia 11 de maio, apura um esquema bilionário de fraudes em empréstimos com instituições públicas e privados, que garantia aos envolvidos um padrão de vida ‘cinematográfico’. No dia 14 de maio, a Justiça decretou a prisão preventiva de quatro investigados. Outros 10 suspeitos, presos temporariamente no dia da operação, foram soltos “assumiram o compromisso de colaborar”.
Entenda em perguntas e respostas como a quadrilha agia
A Polícia Federal ainda afirmou que apresentou à Justiça a lista dos bens apreendidos para que eles sejam encaminhados a leilão.
‘Testa de ferro’
De acordo com documentos obtidos com exclusividade pela EPTV, afiliada da TV Globo, o homem apontado pela investigação como um dos principais “testas de ferro” das empresas falsas criadas pelos investigados, que foi o último suspeito a se entregar foi também o primeiro a prestar depoimento e confirmar o esquema, segundo a Polícia Federal.
O termo “testa de ferro” é utilizado para denominar proprietários de empresas cujos nomes são apenas uma “fachada” para que o real dono do negócio não seja exposto. Segundo os documentos, esse seria o caso de Aloísio Bannwart, que consta como sócio e responsável por diversas companhias envolvidas na investigação.
Ainda segundo o relatório do Ministério Público obtido pela reportagem, Aloísio atuava como procurador da empresa Sandylon, que seria uma off shore, ou seja, uma empresa aberta em territórios onde há menor tributação, com sede no Panamá. A empresa era usada para movimentar o dinheiro da organização criminosa, que mais tarde seria sacado por laranjas.
Veículos de luxo foram apreendidos durante a operação Black Flag
Divulgação/Receita Federal
Movimentações milionárias
Além de Aloísio, a investigação aponta mais três pessoas utilizadas como “testas de ferro” por Rodolfo Portilho Toni, empresário suspeito de chefiar a quadrilha. Soniel Simei Guelfi, por exemplo, movimentou R$ 70 milhões entre 2010 e 2012, sendo 96% remetidos pela empresa Lionfer Comercial. Todos os saques foram feitos com cartões.
Já nas contas de Joel Ferreira do Vale, o relatório aponta a circulação de quase R$ 60 milhões no mesmo período, também provenientes da Lionfer Comercial. O mesmo valor foi movimentado nas contas de Luiz Miguel Pedroso e Luiz Miguel Pedroso Filho; as contas de pai e filho, porém, possuem rendimentos modestos, e teriam sido utilizadas apenas como “meio para a dissimulação dos valores”.
Ainda segundo o relatório, o esquema começou em 2010, com um empréstimo solicitado no Desenvolve São Paulo, agência de fomento do estado, no valor de R$ 69 milhões. No ano seguinte, a quadrilha conseguiu outro empréstimo, de R$ 2,5 milhões, desta vez na Caixa Econômica Federal.
Demais envolvidos
De acordo com a representação do MP, a suspeita é de que a quadrilha seja chefiada por Rodolfo Portilho Toni, empresário e piloto de Fórmula Porsche. A equipe dele tinha como patrocinadora a empresa New Energies, que atua no ramo de energia e é uma das investigadas no esquema.
Imagens exclusivas mostram vida de luxo dos investigados
Mayara Bianchi, que era casada com Rodolfo, também correu na Fórmula Porsche e foi a primeira mulher a participar da modalidade. Segundo o relatório do MP, ela recebeu mais de R$ 3 milhões no esquema entre 2010 e 2012. O casal teria articulado um aumento fictício do capital da empresa Lionfer, do ramo metalúrgico, com sede em Sumaré (SP).
O relatório do MP também aponta a participação de Aedi Cordeiro dos Santos, contador e administrador da empresa JJA Assessoria Fisco Contábil, como gestor dos CPFs falsos. Segundo a representação, ele criou pessoas físicas e jurídicas falsas e é apontado como parceiro de Rodolfo nas fraudes.
PF apreendeu mais dois carros durante a Operação Black Flag
Polícia Federal/Divulgação
O que dizem os citados?
Em nota, a empresa New Energies informou que não é alvo de investigação pela Polícia Federal e ressaltou que “não tem qualquer envolvimento com os fatos investigados, datados de antes do início das atividades do Grupo Newen. A gestão da empresa é feita por quadro de profissionais de reputação no setor financeiro e energético e o grupo conta com normas próprias de compliance”.
Já o advogado da JJA Assessoria Fisco Contábil informou que a empresa e o proprietário, Aedi Cordeiro dos Santos, não têm relação com as ilegalidades apontadas pela investigação. Ele alega que os clientes contrataram a JJA pra dar uma aparência legal aos crimes.
O spa Kalmma, por sua vez, informou que o mandado cumprido na Av. José Bonifácio, 2.510, no Jardim das Paineiras, foi especificamente para a sala 8, onde uma das empresas supostamente envolvidas no caso subloca o espaço do Kalmma Spa Paineiras.
“Em relação à visita da PF na unidade Kalmma Spa Cambuí, corresponde ao fato de que um dos supostos envolvidos no caso, no passado foi sócio da unidade, tendo há quase quatro anos saído do quadro societário”, complementa o texto.
A reportagem tentou entrar em contato com a defesa dos demais citados, mas não conseguiu retorno até esta publicação.
A operação
A ação do grupo consistia em criar empresas com CPFs falsos e nomes similares. Em seguida, os responsáveis solicitavam e conseguiam financiamentos, mas não pagavam impostos e não produziam nada. Depois de criadas, as empresas eram fechadas rapidamente.
A primeira empresa fictícia criada pelo grupo conseguiu, em 2011, um contrato com a Desenvolve SP, uma agência de fomento econômico estatal, e outro com a Caixa Econômica Federal, no valor total de R$ 73 milhões. Além dos CPFs falsos, a organização também usava laranjas para fazer movimentações financeiras.
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