Paciente do HC da Unicamp com hepatite medicamentosa relacionada ao 'kit Covid' entra na lista para transplante de fígado


Homem de aproximadamente 50 anos está em casa e é acompanhado por médicos do hospital de Campinas. Conjunto de remédios não têm eficácia comprovada contra o novo coronavírus. Paciente de Indaiatuba entra na fila de transplante de fígado por conta de ‘kit Covid’
O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp informou, nesta quarta-feira (24), que o pedido de autorização para transplante de fígado no paciente diagnosticado com hepatite tóxico-medicamentosa relacionada ao uso do “kit Covid” foi aprovado. Com isso, ele fará novos exames e será acompanhado pela equipe médica semanalmente até que chegue o momento de passar pelo procedimento cirúrgico.
O kit é um conjunto de remédios como azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina, que não têm eficácia comprovada contra o coronavírus.
Segundo a médica da unidade de transplante hepático do HC, Ilka Boin, o homem de 50 anos é morador de Indaiatuba (SP), recebeu alta e está em casa. Boin informou que, neste momento, o quadro do paciente não requer cirurgia de urgência.
“Todo paciente que está em lista de transplante a gente acompanha, dependendo da gravidade dele, a cada três dias, a cada semana, a cada mês ou a cada três meses. Então [este] é um quadro clínico que a gente acompanha semanalmente”.
Uso de cloroquina e outros remédios sem eficácia contra Covid-19 deve ser banido, diz associação
‘Kit covid é kit ilusão’: os dados que apontam riscos e falta de eficácia do suposto tratamento
Ilka Boin, médica da unidade de transplante hepático do HC da Unicamp
Reprodução/EPTV
O caso
Diagnosticado com a Covid-19 há cerca de três meses, o paciente, que é praticante regular de esporte e não possui histórico de outras doenças, teria apresentado pele e olhos amarelados um mês após utilizar ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina, além de zinco e vitamina D, sob prescrição médica.
“Ele chegou com uma síndrome de doença hepática pós-Covid, mas quando analisamos, vimos que não se enquadrava muito bem na síndrome. Tinha alterações específicas e analisamos a biópsia. Era, na verdade, uma hepatite medicamentosa que causou a destruição dos dutos biliares, e o paciente tinha usado somente, nos últimos quatro meses, remédios do ‘kit Covid'”, relata.
“As lesões foram bem importantes. No começo a gente ia até indicar o transplante de urgência, mas ele foi melhorando conforme foi sendo tratado e avaliado”, afirma a médica.
Contraindicações
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou a defender o uso da cloroquina para o tratamento da Covid-19. O remédio integra o chamado “kit Covid”, ou “tratamento precoce”, que já se mostrou inclusive ineficaz ou até mais prejudicial do que benéfico quando administrado nos quadros leves, moderados e graves de Covid-19.
Chefes de UTIs ligam ‘kit Covid’ a maior risco de morte no Brasil
Atualmente, esse mix farmacológico não é reconhecido e é contraindicado por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Alerta
Segundo Ilka, o paciente foi tratado inicialmente na capital paulista, onde existiam outras duas pessoas com quadros clínicos semelhantes. Os demais pacientes, porém, morreram antes de entrar na lista para um transplante.
“Até semana passada, a gente só tinha esse caso. Da semana passada para cá, nós já soubemos de mais quatro [em outras cidades]. Talvez comecem a aparecer [mais casos]”, analisa.
Ainda de acordo com a profissional de saúde, o uso indiscriminado e sem acompanhamento médico de remédios que carecem de comprovação científica contra a Covid-19 é motivo de preocupação, já que os componentes podem se tornar tóxicos para os pacientes após um longo tempo de uso.
“Estamos perdendo 80% dos pacientes internados na UTI [Unidade de Terapia Intensiva], quando o usual é de 20 a 50%, dependendo da faixa etária. Será que nossa mortalidade não está associada ao uso de remédios que têm sua hora de serem usados? Essa é a pergunta que temos feito”, afirma.
VÍDEOS: autoridades e médicos comentam pior momento da pandemia
Profissionais de Saúde na linha de frente e autoridades avaliam pior momento da pandemia
00:00 / 28:35
Initial plugin text
Busque pelo título do caso
Veja mais notícias da região do G1 Campinas.