'Pandemia da intolerância' é tema da 22ª edição do EPTV na Escola; pensadores discutem problema


Projeto de 2021 será virtual por conta da pandemia, assim como foi no ano passado. Alunos do 9º ano do ensino médio podem participar; veja como. EPTV na Escola: tema de 2021 propõe reflexão sobre intolerância na pandemia
A pandemia de Covid-19 ampliou os casos de depressão, ansiedade e nervosismo em uma sociedade já afetada pelo “vírus” da intolerância. Somado a isso, há o efeito impulsionador das redes sociais, que resulta na rápida disseminação e auxilia, por outro lado, na reação aos episódios de preconceito.
Ataques de fúria pela simples obrigatoriedade do uso de máscara, casos de violência por motivos banais e crimes de ódio se pulverizaram no Brasil junto com o espalhamento do novo coronavírus. Ainda que sempre tenha existido, a intolerância ganhou uma parceria no período da pandemia.
Para discutir o tema tão atual e complexo, o EPTV na Escola deste ano definiu como tema da redação a “pandemia da intolerância”. Assim como a versão do ano passado, a edição de 2021, que é a 22ª do projeto, será virtual e com a participação de estudantes do 9º ano do ensino médio.
Os alunos da área da cobertura da EPTV interessados podem procurar as escolas onde estudam e questionar se a unidade está participando do projeto. Os detalhes desta edição estão no site eptvnaescola.com.br.
Para ajudar no debate sobre o tema, a EPTV ouviu filósofos, um monja budista, um professor de psicologia e pessoas que vivem e combatem o preconceito. Veja, abaixo, o que cada um tem a dizer sobre a intolerância na sociedade e a relação dela com a pandemia de Covid-19.
Márcio Melo Guimarães de Souza – professor de psicologia
“O que a pessoa pede é que estamos dentro de uma pandemia e a norma é que todos usem máscara. Mas aquela pessoa se sente no direito de não usar máscara, e não usar máscara junto com todo o conteúdo social que vem junto com o eu querer ou não usar máscara”
“As pessoas têm se expressado de forma mais intolerante, embora eu acredite que esse fenômeno já vem de antes. Ele é agravado com a pandemia”.
“A intolerância acontece muitas vezes quando eu deixo de perceber o outro enquanto outro. Eu posso descontar nesse outro desde que esse outro tenha um rótulo da intolerância, que pode ser política, pode ser de gênero, pode ser racial, que faça com que esse outro deixe de ser percebido como alguém que também tem seus próprios sentimentos”.
“A intolerância não nasce só no indivíduo. O individuo vive em conexão permanente com a sociedade, então se a gente tem pessoas intolerantes em excesso aqui no Brasil é porque, de alguma forma, nossa sociedade é intolerante”.
Isabelly Maria de Cavalho – vereadora de Limeira
Isabelly foi a primeira vereadora trans eleita em Limeira na história. Como tudo na vida da política, o feito foi alcançado em 2020 sob desconfiança, preconceito e episódios de intolerância.
“Eu quero fazer da minha experiência de vida um ponto de partida para uma transformação social para que essas violências não aconteçam mais”.
Isabelly Maria de Carvalho, vereadora trans de Limeira
Reprodução/EPTV
Monja Coen Rõshi – monja zen budista
“Aquelas pessoas que ficaram muito confinadas como eu estou ficando têm essas alterações de humor. Mas quem está na rua também tem, porque as lojas estão fechadas, porque a vida como era antes não pode ser vivida, e quem não sabe se adaptar acaba ficando intolerante”, pontua a Monja Cohen.
“Nós podemos contagiar as pessoas com o bem, com a alegria de viver, com a solidariedade, com a sabedoria, com compaixão. Na hora que ficar muito bravo, respire e aí responde. Responda quando estiver com o coração tranquilo. O sonho ideal é que todos nós aprendêssemos essa lição, primeiro que estamos todos juntos e pertencemos à mesma espécie e é cuidando que seremos cuidados”, monja.
Clóvis Barros Filho – professor de ética
Clóvis de Barros Filho, professor de ética
Reprodução/EPTV
“A intolerância sempre existiu, mas a possibilidade de manifestá-la faz com que ela acabe sendo acalentada de maneira privilegiada”, Clóvis de Barros Filho.
“Para poder pensar melhor, você justamente tem que submeter a sua opinião ao olhar crítico do outro, e muitas vezes o olhar crítico do outro enriquece a sua opinião. Se você se fecha em bolhas, se fecha em tribos, aonde todo mundo repete as mesmas coisas, você perde a oportunidade de um enriquecimento. E eu digo mais: mesmo que seja para comprovar que a sua opinião é melhor, é preciso ouvir a dos outros”., Clóvis de Barros Filho.
“O papel nosso é formar novas gerações para que possam ter um olhar diferenciado sobre o outro”, Clóvis de Barros Filho.
Mário Sérgio Cortella – filósofo
“Nós temos o incremento da possibilidade da intolerância ter uma difusão muito mais veloz, como também temos mais notícias sobre isso e, nessa hora, se tem a percepção que a intolerância é maior do que já foi. Ela não é maior, é mais inaceitável. A intolerância hoje é mais intolerável”, Mário Sérgio Cortella.
“É uma geração que tem que cuidar para que a gente, cada vez mais, tenha orgulho de ser humano em vez de ter vergonha de ser humano”, Cortella.
Mário Sérgio Cortella, filósofo
Reprodução/EPTV
Alessandra Ribeiro – gestora de relações institucionais da Fazenda Roseira
Na cultura negra, a intolerância historicamente se materializa em ataques a pessoas, templos e tradições. Há anos, os episódios são, inclusive, institucionais. A lógica, no entanto, tem sido mais denunciada e criminalizada, apesar do caminho a percorrer ainda ser longo.
Em Campinas, a Fazenda Roseira mantém e valoriza as culturas de origem africana. O local foi vandalizado e invadido seguidas vezes, o que gerou prejuízo e medo nos frequentadores. Mais uma vez, foi preciso se unir para superar a situação.
Alessandra Ribeiro, em Campinas
Reprodução/EPTV
“Se eu pegar um terço de Rosário e começar a rezar aqui todo mundo vai falar ‘olha que bonito’. Mas se eu cantar para meus ancestrais Pretos-velhos parece que estou agredindo. Toda vez que a gente coloca um símbolo do macumbeiro, sempre a gente associa com corpo negro fazendo o mal”, diz Alessandra Ribeiro, mestre da comunidade Jongo Dito Ribeiro, mãe de santo umbandista e coordenadora da Pós Graduação em Matriz Africana.
“Quando as pessoas param de se conectar com almas, que é o que nos fazem se mover no mundo, e passam a se conectar por aquilo que o olhar vê, da maneira que ela classifica a partir do repertório que ela traz, a tendência de você cometer equívocos e trazer grandes males é muito grande”, Alessandra Ribeiro.
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