Para muitas aves, chegada do outono traz sinais de que é hora de partir


No Brasil, fenômeno é mais percebido nas regiões Sudeste e Sul; no passado, histórias curiosas cercavam a explicação para o “desaparecimento” de algumas espécies. Publicada em 1555, xilogravura faz parte de um livro sobre a natureza dos países nórdicos
Olaus Magnus/Domínio Público
A gravura ilustra duas pessoas à margem de um lago congelado puxando uma rede com peixes e andorinhas. Pendurada em algum museu de arte poderia facilmente passar por uma pintura surrealista. “Pescadores de andorinhas” poderia ser o título. Não é difícil imaginar que contextualizada como sendo de algum discípulo de Salvador Dalí a obra provocasse as mais criativas reflexões nos críticos de arte.
Mas esta é uma imagem “baseada em fatos reais”, ou pelo menos no que se julgavam fatos reais no séc. XVI. Publicada originalmente em 1555, a xilogravura faz parte de um livro sobre a natureza dos países nórdicos escrito pelo bispo sueco Olaus Magnus. A cena ilustra a explicação dada pelo autor para o fato das andorinhas desaparecem no outono. Segundo ele, as aves mergulhavam e hibernavam no fundo de rios e lagos, onde permaneciam submersas até a chegada da Primavera. Ainda segundo o bispo, pescadores inexperientes tentavam aquecer as andorinhas “pescadas” para revive-las, mas elas logo morriam. Pescadores mais experientes devolviam elas ao lago.
Andorinha-do-rio habita ambientes aquáticos como lagoas, estuários, rios, canais e mangues.
Helder do Prado/VC no TG
Embora hoje essa história soe como papo de maluco, andorinhas hibernando submersas em lagos congelados é apenas uma das muitas explicações oferecidas por naturalistas do passado para o desconcertante fato de muitas aves simplesmente desaparecem de algumas regiões no outono e ninguém ter certeza do que acontecia. Outras explicações defendiam que, com a mudança de estação, determinadas espécies se transformavam em outras (afinal, enquanto algumas desapareciam outras apareciam), ou ainda que as aves hibernavam ocultas em ocos de árvores e outras cavidades. Para muito naturalistas essas e outras hipóteses seriam muito mais fáceis de acreditar do que imaginar que andorinhas e outras aves pudessem voar milhares de quilômetros de distância para regiões de clima mais ameno e depois retornar para os locais onde nasceram.
Hoje sabemos que muitas aves realmente desaparecem de determinadas regiões durante boa parte do ano. Mas elas não submergem em lagos ou hibernam, elas migram. Migrações são deslocamentos geográficos regulares e periódicos que as aves, e outros animais, realizam em busca de condições mais propícias para sobrevivência.
Suiriri ocorre em todo o Brasil e é migratório em algumas regiões
Rudimar Narciso Cipriani
Para muitas espécies, a diminuição da temperatura e das horas de luz do dia, além de outras mudanças trazidas pelo Outono são sinais importantes que significam que é hora de partir. No Brasil, o fenômeno é mais pronunciado nas regiões Sudeste e Sul. Aqui no meu quintal, nas montanhas da Serra da Bocaina, próximo à divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, nas últimas semanas não tenho mais observado andorinhão-do-temporal, bem-te-vi-rajado, peitica, suiriri, irré e juruviara. Algumas dessas espécies são migrantes parciais, ou seja, migram de algumas regiões e não de outras, por isso não estranhe se você continuar observando algumas delas durante o Outono e o Inverno, mesmo no Sudeste. Se for o caso, sou capaz de apostar que você mora em alguma região onde o clima no outono e inverno não esfria tanto.
Através de métodos como o anilhamento, que é a marcação das aves com anilhas metálicas com códigos individuais, e mais recentemente a colocação de GPS e outros dispositivos de localização, os ornitólogos tem descoberto cada vez mais detalhes surpreendentes sobre os destinos destas e muitas outras espécies. Sabemos que a maioria das aves que reproduzem no Sudeste e Sul do Brasil e migram com a chegada do outono tem como destino o norte da América do Sul, especialmente a Amazônia com seu clima quente e abundância de insetos.
Bem-te-vi-rajado é uma das aves que migram para a região sudeste durante a Primavera
Susana Coppede/Arquivo Pessoal
Se imaginarmos que um bem-te-vi-rajado, que pesa cerca de 50 gramas (pouco mais que sete moedas de um real), é capaz de viajar anualmente mais de três mil quilômetros ida e volta do Sudeste do Brasil até a Amazônia, o que dizer dos chamados migrantes de longa distância, como a andorinha-azul? Com o auxílio de geolocalizadores fixados nas aves (um pequeno instrumento capaz de estimar e registrar as coordenadas geográficas com base na hora em que o sol nasce e se põe), ornitólogos descobriram que as populações de andorinha-azul que reproduzem na Colúmbia Britânica, extremo oeste do Canadá, migram todos os anos para o Sudeste do Brasil, uma jornada que ida e volta ultrapassa facilmente os 6 mil km!
Diversas outras espécies com rotas tão ou ainda mais fantásticas desaparecem não apenas de algumas regiões do Brasil nesta época do ano, mas de toda a América do Sul e também América Central. São migrantes oriundos da América do Norte que passaram a primavera e verão por aqui e retornam para suas áreas reprodutivas com o início da primavera no Hemisfério Norte. Lembrando que quando é outono aqui no Hemisfério Sul é primavera lá no Hemisfério Norte, assim como a chegada do Verão por aqui corresponde a chegada do Inverno por lá.
Falcão-peregrino possui envergadura de 120 centímetros
Gabriel Arroyo/ Arquivo Pessoal
Além da andorinha-azul, o falcão-peregrino, a águia-pescadora, o bacurau-norte-americano, diversas espécies de maçaricos, de batuíras e de mariquitas, e muitas outras espécies vivem em uma primavera e verão sem fim alternando entre os hemisférios do planeta em diferentes épocas do ano. No total, o CBRO (Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos) aponta que cerca de 70 espécies de aves brasileiras são “visitantes setentrionais”, ou seja, são migrantes oriundos do hemisfério norte que não reproduzem no Brasil, estando presente por aqui apenas durante parte do ano.
Muito além de mais uma curiosidade fantástica sobre a vida selvagem, as migrações das aves conectam o planeta e possuem muitas implicações para a natureza. Não é incrível pensar que um maçarico-branco que nasceu na tundra canadense pode virar alimento de um falcão-de-coleira caçando no litoral do Brasil?
Se o conhecimento atual sobre as migrações de aves nos faz abandonar a ideia de andorinhas hibernando embaixo d’água, o mesmo não podemos dizer do suposto movimento artístico a qual pertenceria a imagem lá em cima. Afinal, não deixa de ser uma obra surrealista da natureza o fato que diversas espécies de aves a primeira vista frágeis e pequenas, sejam capazes de conectar partes do planeta distantes milhares de quilômetros de distância. Algumas vezes a vida imita a arte, outras ela é a própria artista.
Boa viagem! Até logo!
Luciano Lima é ornitólogo e consultor do Terra da Gente.