Pescador que viralizou ao resgatar garça no MS conta detalhes por trás da história: 'um dia a natureza me salvou'


Locutor de rodeio já se livrou de um naufrágio no mesmo rio graças a um tronco de árvore. Veja vídeo que viralizou do resgate da garça enroscada com uma linha em um tronco no MS
Quatro minutos foi o tempo que o locutor de rodeio, Marcio Alexandre, precisou para soltar uma garça presa em um tronco seco e retirar a linha que estava enroscada no bico. Foi tudo muito rápido, afinal, cada segundo era decisivo para salvar a vida do animal. “A garça estava agonizando, não tinha mais forças para voar, com certeza ela iria morrer”, conta o locutor.
No apuro ele tentou com um canivete, mas estava sem corte. “Tinha muita linha presa com força no bico e o canivete estava cego, não cortava”, conta Márcio, que só conseguiu soltar o animal quando lembrou de uma faca afiada que carrega junto com a tralha de pesca. “Quando tirei a garça do tronco, fiquei com medo que a ave tentasse fugir. Se o animal vai embora com o bico amarrado, com certeza iria morrer de fome. Também fiquei preocupado da ave se debater e sair ferida. Mas ela estava cansada e, por um momento, achei que percebeu que seria salva. Ficou quietinha, o que me ajudou muito”, conta Marcio.
O resgate foi durante uma pescaria em família, o locutor estava com a filha Priscilla e a amiga dela, a Lara. Os três navegavam pelo rio Paranaíba, próximo à cidade que tem o mesmo nome, no Matogrosso do Sul. “De longe eu achei que era um saco pendurado com lixo, ou, com ceva para peixe e já estava seguindo. Só que de repente, pensei: ‘tá estranho, né?’. Foi quando cheguei mais perto e vi que era uma garça. Achei que estava morta, mas na verdade, estava agonizando”, lembra.
No rio Paranaíba o locutor vai atrás do tucunaré azul, peixe de três a quatro quilos, mas encontrou outro animal dos grandes
Lara Amaral/Acervo Pessoal
A filha de Marcio, que mora em Maceió e passava férias com o pai, teve que ajudar: foi para parte da frente segurar o barco. “Quando a gente se aproximou, ainda estava ventando. É impressionante como nosso cérebro age quando a gente se depara com uma situação dessa. Todo mundo foi fazendo alguma coisa e foi tudo muito rápido”, conta Priscilla Santos Gomes.
A atendente de call center lembra que estava programado passar por aquele ponto de pesca. “A gente já tinha pescado por ali há alguns dias antes, mas meu pai quis tentar mais uma vez. Quando a gente viu de perto e conseguiu salvar a garça, foi uma emoção surreal”, lembra Priscilla, que voltou para casa no Nordeste, com um vídeo incrível, gravado pela amiga.
“Naquela correria, a gente ficou aflita, pensando o que iria fazer, nem pensei em filmar, mas a Priscilla estava segurando o barco e o Marcio socorrendo o animal, eu fiquei na parte de trás gravando. Nem pensamos muito, a gente estava mais preocupado em salvar a garça que iria morrer se a gente não socorresse. Dava a impressão que ela estava ali há um bom tempo”, conta a estudante Lara Amaral.
Garça-moura estava enrolada ao tronco pelo bico quando pescadores chegaram ao local
Lara Amaral/Acervo Pessoal
O vídeo mostra a imagem impactante da ave pendurada pelo bico, mas também o cuidado e a agilidade que o locutor de rodeio teve para livrar a garça do enrosco. “Sempre lidei com animais, bois, vacas. Tenho cachorros, sempre cuidei bem”, disse ele.
O locutor também não esperava pelo comportamento da ave depois que foi solta. “A garça parou na borda do barco, nós ficamos ali impressionados, emocionados. Parece que ela queria agradecer por tudo que fizemos por ela. Todo mundo se emociona (com a imagem)”, completa Márcio que sabe bem o que significa gratidão.
Se um tronco de árvore foi “enrosco”, no mesmo rio, um outro já salvou o locutor de rodeio
A hora de retribuir
“Aô, potência!”, o jargão que ecoava nas arenas foi “silenciado” pela pandemia. Com todas as festas do peão canceladas, Marcio Alexandre teve que arrumar emprego em uma rádio. “Eu fiquei muito triste, estava entrando em depressão porque não podia fazer o que mais gostava. Foi a pescaria que me ajudou”. Para enfrentar esse período, ele foi se isolar no Rio Paranaíba. “É uma terapia, aqui a gente pesca o tucunaré azul. Tem muito, é uma coisa linda!”.
Sempre acostumado a fazer fotos com peixe grande, Marcio nunca pensou que a imagem dele que se tornaria popular em um rio, fosse ao lado de uma ave. O vídeo foi compartilhado várias vezes em redes sociais, só em uma publicação foram mais de três milhões de pessoas que assistiram. “Foi parar no programa da Ana Maria Braga e em sites de todo o Brasil, acho que por causa da emoção e porque a história teve um final feliz”, conta o pescador.
O locutor de rodeio já narrou na arena mais famosa da América do Sul, na Festa do Peão de Barretos
Marcio Alexandre/Acervo Pessoal
Não foi o primeiro desafio que Marcio Alexandre enfrentou no Rio Paranaíba, quatro meses antes de salvar a ave, o locutor de rodeios sofreu um acidente durante uma pescaria. “Nós pegamos uma tempestade no período da tarde e ficamos esperando passar. Quando já era oito horas da noite, tentamos ir embora. Só que estávamos longe e não conseguimos voltar, a lancha afundou”.
Mais uma vez no caminho do Marcio tinha um tronco, que foi a salvação dele e dos dois amigos que estavam juntos. “A gente se segurou em duas árvores secas que tinham lá no meio do rio e ficamos. Sorte que a tempestade parou”, lembra o locutor. Foram doze horas esperando por socorro, até a chegada de um barco de pescadores. ” Tinham lanchas, policiais e até avião (procurando). Parou a cidade, ninguém encontrava a gente, porque é um rio muito grande”.
Os pescadores não perceberam que entre o casco e o piso da lancha, tinha bastante água. Por isso, a embarcação acabou afundando. Sem coletes salva-vidas, eles não tinham muito o que fazer. “Se não fossem esses troncos de árvores, a gente tinha morrido. Ninguém conseguiria nadar até a margem do rio é muito longe, água agitada.”
O rio Paranaíba, foi o cenário de resgate da ave e onde o locutor de rodeio sobreviveu a um naufrágio
Priscilla Santos Gomes/Acervo Pessoal
Mesmo depois da experiência traumática, o locutor de rodeio não deixou de pescar e no mesmo rio, Marcio, que um dia precisou ser resgatado, não pensou duas vezes na hora de ajudar a ave. “No naufrágio, fomos salvos pela natureza, então, quando eu vi essa garça enrolada lá, enroscada pelo bico, eu lembrei na hora daquele dia que naufragamos. Pensei: cara, um dia a natureza me salvou, chegou a hora de retribuir, foi o meu primeiro pensamento”.
Quem disse que um tronco no meio do rio não serve para nada? Pescador de tucunaré, o locutor sabe que perto da ‘pauleira’ é onde essa espécie procura refúgio, é onde também as aves descansam quando estão atrás de comida e algumas fazem até ninhos. Ou seja, mesmo seca, no meio do rio, uma árvore tem muito a oferecer, no caso do Marcio, foi proteção e redenção. “O dia 19 de dezembro (dia do naufrágio) foi o dia do meu renascimento. Por isso, salvar a garça me deu muita alegria e o sentimento foi de gratidão a Deus”, completa o pescador.
Do descuido à “armadilha”
Como a ave ficou enroscada daquele jeito? Talvez essa seja a primeira pergunta que todo mundo faça ao assistir o vídeo. A única certeza é que a ave não estava presa a um anzol, mas sim, à uma linha. “Por causa de toda agitação, não sei te dizer se era uma linha usada para pescar com vara, ou, rede de pesca. Também não faço ideia de como a ave ficou presa daquele jeito. Estava com o bico preso e a língua para fora”, explica Márcio.
Para o biólogo e experiente pescador esportivo, Diego Ricardo Biasoli, só pela imagem não dá para ter certeza do que aconteceu. “Precisaria de uma investigação mais detalhada, para a gente saber que tipo de linha era e tentar entender de que forma o animal ficou enroscado”.
Apesar de todas incertezas sobre o caso, Diego alerta que um descuido pode ser fatal na natureza. “Já vi muito, principalmente em pesqueiros, quando a pessoa corta a linha para arrumar o equipamento e joga no chão. Aí o bicho vem e se enrosca. Já encontrei várias aves mortas, enroscadas em árvores e com linha presa nas patinhas”, comenta Biasoli.
Garça resgatada pelos pescadores havia enroscado o bico em uma linha que pesca que a prendeu no tronco
Lara Amaral/Acervo Pessoal
Essa ‘história de linha solta’ é bem parecida com aquela dos “canudinhos” jogados na natureza, parecem inofensivos, mas representam uma ameaça para algumas espécies. “Pedaço de linha é lixo e como qualquer outro lixo, a gente descarta na lixeira, não joga no rio e nem deixa no barranco. O pescador esportivo tem que se conscientizar disso. Se estiver no meio do rio, guarda no barco e depois faz o descarte correto”.
O biólogo também alerta que redes de pesca podem se tornar verdadeiras armadilhas. “O pescador profissional também precisa ser consciente, se a rede arrebentar por algum motivo no rio, tem que recolher o que sobrou, para não se tornar uma armadilha. Essa história da garça é um bom exemplo, de como um simples pedaço de linha pode matar uma ave ou outro bicho. Aquela linha, não era para estar ali na natureza. Por sorte, o animal escapou”, completa Diego.
O locutor de rodeio, que salvou a garça, ressalta o tipo de relação que o pescador tem que ter com o meio ambiente. “Todos os pescadores precisam ter um carinho muito grande pelos bichos, uma sintonia com a natureza. O rio Paranaíba é lindo, a gente tem que cuidar”.
Mas que ave era aquela?
A garça-moura também é conhecida pelo nome de socó-grande
Arquivo TG
Garça-moura, maguari, ou, socó-grande são apenas alguns dos nomes pela qual a maior garça do Brasil é conhecida. Com o nome científico de Ardea cocoi, a espécie atinge uma envergadura de 1,80 m. Pode ser vista em quase todo o país. É uma ave solitária e que defende território. Na época de reprodução, as aves formam colônias que chegam a reunir até 600 casais. Os ninhos são construídos em galhos secos.
Detalhe, a garça-moura não bebe água. “Elas retiram o líquido necessário para suas funções vitais, dos alimentos que consomem”, explica a bióloga Giselda Person. Na dieta da ave tem peixes, crustáceos, sapinhos e pequenos invertebrados aquáticos. Dá para dizer também, que é uma espécie que não gosta de muito trabalho na hora de se alimentar, prefere evitar a “fadiga”.
Garça-moura é normalmente um animal solitário e territorial, até mesmo para se alimentar
Ernane Junior/ VCnoTG
“A garça escolhe uma determinada presa fazendo uma relação de energia, nutrientes, toxicidade e tempo de manipulação. As presas grandes nem sempre são um bom negócio, porque a garça vai gastar mais tempo para caçar, portanto, vai gastar mais energia. Quanto maior a presa, menos ela vai comer”, explica Giselda.
É comum avistar a garça-moura na beira de rios e áreas alagadas procurando comida várias vezes ao dia. Por isso, a ave enroscada que aparece no vídeo, provavelmente iria morrer de fome e desidratada. “Logo que foi solta, ela parou no barco para descansar pelo stress provocado pela falta de comida. Aposto que se tivessem oferecido um peixinho, ela aceitaria”, comenta a Giselda.
Garça-moura se despediu do grupo, após o resgate, de “asas abertas”
Lara Amaral/Acervo Pessoal
Em um voo muito “charmoso”, típico da espécie, feito em linha reta e com as asas batendo lentamente, a garça-moura se despediu da família de pescadores. Uma cena que emocionou todos no barco, tanto é, que no fim do vídeo dá para ouvir o comentário espontâneo do Marcio: “Nossa, que impressionante! Moço, tô arrepiado!”.
Esse momento tão marcante inspirou o locutor de rodeio a escrever novos versos. Ainda não estão prontos, mas de repente se você ouvir em uma arena por aí, a história de uma garça-moura, saiba que foi baseada em fatos reais. “Eu acredito muito na lei do retorno. Acho que fui ferramenta de Deus, mesmo. Parece que Deus quis testar: o que será que esse rapaz vai fazer? Tentamos retribuir com um gesto de amor”, completa o locutor que deve voltar às arenas do Brasil só em 2022. Até lá dá para pescar bastante e caprichar nas rimas que vão falar de esperança e natureza.
Lara (esquerda), Marcio e Priscilla durante a pescaria que acabaram resgatando a garça. “A gente nem precisava mais pegar peixe”, brinca Lara, que filmou toda ação.
Lara Amaral/Acervo Pessoal