Proporção de casos graves de Covid-19 aumenta para 12% no ano em Campinas e supera 2020


Taxa de pacientes que evoluíram com gravidade em 2020 era de 10,5%, percentual que subiu em 2021. Especialistas citam variante brasileira P.1 e explosão de casos sem crescimento na oferta de atendimento médico como causas. Ambulância em frente ao Hospital Metropolitano na cidade de Campinas
DENNY CESARE/ESTADÃO CONTEÚDO
A proporção de casos de Covid-19 que evoluem com gravidade aumentou de 10,58% em 2020 para 12,91% de janeiro até esta sexta-feira (28), segundo dados da Painel Covid-19, plataforma mantida pela Secretaria Municipal de Saúde.
Em números absolutos, os casos de pacientes que precisaram ser internados neste ano já superam os de 2020, apesar do ano passado ainda ter mais registros gerais da doença. Veja na tabela abaixo.
Casos graves de Covid-19 em 2020 e 2021
Em relação às mortes, o total de 2021 também já ultrapassou, em metade do tempo, a quantidade registrada nos 10 meses de pandemia do ano passado.
Para o médico epidemiologista André Ribas de Freitas, que possui doutorado em epidemiologia pela Unicamp, o aumento de casos graves está diretamente relacionado à predominância da variante P.1 do novo coronavírus na segunda onda da Covid-19.
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P.1 predomina em amostras estudadas pelo Adolfo Lutz na região de Campinas
Em um estudo em fase final de revisão para ser publicado no British Medical Journal, Freitas e uma equipe de pesquisadores analisaram os dados da pandemia no Rio Grande do Sul em dois momentos. No primeiro, entre novembro e dezembro de 2020, quando uma cepa muito similar à original do vírus ainda predominava, e no segundo, em fevereiro de 2021, mês em que a P.1 já era maioria naquele estado.
“Nós identificamos que o risco de mortalidade praticamente dobrou de uma onda para outra. Então demonstrando que essa nova linhagem, a P.1, causa uma proporção maior de casos graves e esse aumento se dá tanto no risco de internação quando no risco de morte”, diz Freitas, que é professor de epidemiologia na Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas.
O resultado aponta que o aumento global do risco de morte dobrou no segundo momento e, especificamente entre as pessoas de 20 a 59 anos sem doenças crônicas, a Covid-19 gerou 5,5 vezes mais chance de levar a óbito do que entre novembro e dezembro. Para idosos, a alta foi menor, de 20%.
“O grupo de maior risco continua sendo o de idosos, mas este grupo diminuiu a diferença com os idosos. Aumentou mais a gravidade neste grupo do que nos idosos”, afirmou o epidemiologista.
A equipe utilizou a base de dados do sistema de saúde do Rio Grande do Sul e optou por comparar com fevereiro, e não março, para evitar que o estudo incluísse a situação drástica de superlotação nos hospitais. “Quando a gente compara com março, uma parte da mortalidade pode estar atribuída, provavelmente, à lotação”.
Assistência em saúde não acompanhou explosão de casos
Já a médica infectologista da Unicamp Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, acrescenta que a explosão de casos neste ano não foi acompanhada, na mesma velocidade, pelo crescimento na oferta de atendimento médico, o que gerou agravamento dos casos.
“A mortalidade, nos quatro primeiros meses [de 2021] em números absolutos foi maior do que nós tivemos no de 2020 todo, e muito em função de uma explosão, um aumento muito rápido do número de casos que não foi acompanhado do aumento dos recursos de assistência a esses pacientes”.
“Então nós tivemos muitos pacientes que ficaram dias aguardando vaga para internar em enfermaria ou UTI e isso acabou agravando a evolução desses pacientes com certeza”, aponta Stucchi.
A infectologista da Unicamp Raquel Stucchi
Reprodução / EPTV
Segundo a infectologista, como houve aumento abrupto de casos totais, é esperado que haja um crescimento proporcional dos casos graves.
“Como nós tivemos um aumento grande do número de casos também este ano, é esperado que proporcionalmente você tenha um número também maior de casos graves, mas não nos parece que possa atribuir esse aumento de casos graves à variante, por exemplo. Eu interpreto como sendo um aumento de casos graves tanto pela explosão de casos graves como um todo, então proporcionalmente você vai aumentar os casos graves, como também uma demora na assistência a esses pacientes. Então a nossa qualidade de assistência em saúde diminuiu este ano”.
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