Região de Campinas tem maior nº de internações Covid para um dia em 2 meses: 'Sensação horrível'


Dados da Fundação Seade mostram que DRS-7 registrou 292 novas hospitalizações pela doença, maior número desde 2 de abril. Para quem atua na linha de frente, o novo aquecimento de uma pandemia que nem esfriou amplia os desgastes físico e psicológico. Paciente em leito de UTI Covid em Campinas (SP) em foto de 26 de junho de 2020
Reprodução/TV Globo
O Departamento Regional de Saúde da 7ª região (DRS-7), com sede em Campinas (SP), voltou a registrar pico de internações por Covid-19. Dado atualizado neste sábado (5) e que reflete números do dia anterior aponta que 292 pessoas foram hospitalizadas nos 42 municípios da região. É o maior volume para um único dia em dois meses, segundo relatório da Fundação Seade. Para quem atua na linha de frente, lidar com um novo agravamento da pandemia preocupa e amplia os desgastes físico e psicológico.
“A sensação é horrível. Eu faço tudo o que posso, e a Covid te vence. Você se sente um lixo. É um negócio absurdo. É uma sensação de ‘enxugar gelo’. Morre e já tem alguém para ocupar o leito”, lamenta Alexandre Angione, diretor de assistência do Hospital Municipal Mario Covas, de Hortolândia (SP).
O relatório da Fundação Seade mostra que depois do pico de março e abril, houve uma uma redução nas internações até a primeira de maio, mas ainda em patamares elevados. No entanto, a curva voltou a subir. O número aferido neste sábado é o maior desde 2 de abril, quando a regional contabilizou 327 internações Covid em um único dia – houve o registro de 298 hospitalizações em 28 de maio, mas o Seade destaca que uma instabilidade na notificação no sistema do SUS provocou uma variação atípica na data.
Ainda segundo Angione, mesmo com números tão altos, a realidade tem sido cruel e não apresenta nenhum momento de sossego aos profissionais que atuam na linha de frente.
“Nos melhores dias, a ocupação está em 80%. Mas tenho pacientes para internar e sei que no final do dia não vai ter nenhuma vaga”, diz.
Pressão constante
Assim como Angione, outros profissionais da saúde que atuam na região de Campinas sentem – e muito – o impacto desses aumentos em casos e internações.
“Estamos vivendo um momento de retorno de atendimentos na porta estourando, com internações altas. É difícil pensar em melhora. Tenho que pensar plantão a plantão, não tenho como criar expectativa”, conta um profissional que atua UTIs na rede pública e pede para não ser identificado.
Ele conta que a pressão é tanta e com falta de profissionais, que plantões de 48 horas com 12 horas de descanso são constantes. O profissional relata, inclusive, que chegou a encarar um de 96 horas.
“Você se expõe a contaminar, a contaminar as pessoas que moram com você. Não tem médico, tem muitos que não querem se arriscar, e no serviço eles querem apenas que você atenda, não se importam como. E em um cenário que é preciso ter o psicológico bem forte. Você lida com a morte o tempo todo”, diz.
Festa clandestina encerrada pela Guarda Municipal em Campinas em abril de 2021
Reprodução/EPTV
Aglomerações
A escalada dos números na região, principalmente com casos de aglomerações e festas clandestinas, mexe inclusive com o emocional de alguns profissionais.
“A gente está sofrendo um estresse pós-traumático. É meio assustador. Estamos começando a fazer algo que médico nenhum pode fazer, que é julgar. Quando vejo uma galera aglomerada, sei do perigo que é. Às vezes penso: ‘pode ser que semana que vem aquele cara esteja comigo’. É triste. Quando o paciente está ali, se ele tem culpa ou não, não é problema meu. Minha função é cuidar dele. Mas você se vê revoltado com a sociedade”, afirma Angione.
Para quem lida com os casos graves de Covid-19 diariamente, é clara a mudança no perfil dos internados, com cada vez pacientes mais jovens e sem comorbidades lutando contra a morte.
“É claro que quem tem comorbidades tem mais chance de evoluir para uma forma mais grave, mas hoje, seja o paciente cheio de outras doenças ou sem, na minha cabeça as chances são iguais. O medo que eu tenho de um, é um medo que eu tenho de outro, o desfecho acaba o mesmo”, relata um profissional da linha de frente que pediu para não ser identificado.
Cada vez mais perto
Diretor de assistência do Hospital Mário Covas, Alexandre Angione diz que as pessoas estão se dando conta, aos poucos, que a Covid-19 é cada vez mais próxima.
“Em março do ano passado, as pessoas diziam: ‘ouvi dizer que tem caso de Covid’. Em julho, diziam: ‘no meu bairro tem Covid’. Em outubro, ‘conheço alguém que pegou Covid’. Em março deste ano: ‘perdi alguém para Covid’. A coisa foi se aproximando e todo mundo conhece alguém que morreu. É igual a história do sapinho na panela. Se você colocá-lo com a água quente, ele pula. Agora, se for esquentando aos poucos…”
Profissional de saúde atende a pacientes com Covid-19 em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de hospital na Zona Norte de São Paulo, em foto do dia 6 de maio.
Mister Shadow/Estadão Conteúdo
Municípios no DRS-7
O DRS-7 abrange 42 municípios. São eles:
Águas de Lindóia, Americana, Amparo, Artur Nogueira, Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Bragança Paulista, Cabreúva, Campinas, Campo Limpo Paulista, Cosmópolis, Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jaguariúna, Jarinu, Joanópolis, Jundiaí, Lindóia, Louveira, Monte Alegre do Sul, Monte Mor, Morungaba, Nazaré Paulista, Nova Odessa, Paulínia, Pedra Bela, Pedreira, Pinhalzinho, Piracaia, Santa Bárbara d’Oeste, Santo Antônio de Posse, Serra Negra, Socorro, Sumaré, Tuiuti, Valinhos, Vargem, Várzea Paulista e Vinhedo.
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