Vídeos inéditos mostram filhotes de felino raro em ONG de animais silvestres


Gatos-palheiros nasceram há duas semanas na Associação Mata Ciliar de Jundiaí (SP); espécie é considerada ameaçada de extinção. Vídeos inéditos mostram filhotes de felino raro em ONG de animais silvestres
Com o auxílio da equipe de profissionais da Associação Mata Ciliar de Jundiaí (SP), o Terra da Gente produziu imagens inéditas dos dois raros filhotes de gato-palheiro que nasceram na ONG de animais silvestres no último dia 19. Além dos pequenos, as filmagens mostram também dos papais Kitami e Theodoro. A mãe segue administrando os cuidados com os gatinhos e o pai foi separado em outro recinto para não interferir no processo.
Os flagrantes foram feitos com uma câmera posicionada por integrantes da equipe de tratadores dos felinos e acionada remotamente pelos cinegrafistas do TG. As imagens mostram a mãe Kitami junto ao filho e à filha no ninho. Apenas pessoas autorizadas podem se aproximar dos animais, muito rapidamente, já que, ao menor sinal de estranhamento, a fêmea pode reagir de forma agressiva contra os pequenos.
Nascimento de um macho e de uma fêmea foi considerado uma vitória já que é algo incomum de ser visto em cativeiro
Divulgação
“Estamos sendo bem metódicos para que ninguém passe perto do ninho e que, mesmo o tratador, não fique muito tempo no local, porque se a fêmea identificar um manejo incorreto pode rejeitar ou até atacar os filhotes”, explica o biólogo da Associação Mata Ciliar, Rodrigo Falcão Ventura.
A necessidade de cuidados ao lidar com a espécie é explicada pelo nível de conservação: considerado ameaçado de extinção, o gato-palheiro (também chamado de gato-dos-pampas) sofre com as consequências da fragmentação do habitat e do avanço da urbanização. O felino já foi até considerado um dos mais raros e difíceis de ser estudado, dado o alto grau de dificuldade de ser encontrado na natureza.
A história de fragilidade da espécie se relaciona até mesmo com o passado de Kitami e Theodoro: o pai dos filhotes foi encaminhado para a Associação após ter sido resgatado por outra instituição, já a mãe dos pequenos havia sido encontrada filhote e criada por uma família como um gato doméstico até que notassem a diferença e a destinassem aos cuidados dos profissionais.
O pai dos filhotes vive em um recinto separado para que não interfira na atenção oferecida a eles pela fêmea
Rodrigo Zeida/TG
A reprodução
Na ONG, o tratador de animais silvestres Lucas Alves ficou responsável por cuidar dos gatos-palheiros adultos nos recintos da Associação por mais de dez meses. Entre as dinâmicas propostas fez enriquecimentos ambientais com os animais, instalando recursos nos espaços que estimulassem a atividade dos felinos. Com isso, a equipe notou que o local pareceu se tornar ainda mais adequado para a reprodução de Kitami e Theodoro.
Os animais silvestres se reproduzem quando estão em um ambiente favorável, então saber que eles tiveram os filhotes é um sinal de que a equipe está fazendo um bom trabalho aqui
A ONG Mata Ciliar registrou o nascimento dos filhotes de gato-palheiro em 19 de maio
Divulgação
Os profissionais não puderam observar o momento da reprodução, já que os felinos possuem hábitos noturnos e acredita-se que a cópula aconteceu durante esse período. “Mas a gente notou que a fêmea estava prenha por conta do comportamento e do aumento do volume abdominal”, descreve Rodrigo. Após exatas duas semanas do nascimento, os filhotes ainda dependem totalmente dos cuidados providos pela mãe, que até recebeu um enriquecimento em sua dieta para poder auxiliar na produção do leite.
Além do alimento, também é papel dela ensinar hábitos aos filhos e garantir sua proteção até que atinjam a maturidade sexual. A equipe da ONG registrou, por exemplo, Kitami aquecendo os filhotes durante uma madrugada com recorde de frio em Jundiaí, quando os termômetros marcaram pouco mais de 4°C na cidade.
Gato-palheiro aquece filhotes em madrugada com recorde de frio em Jundiaí (SP)
Associação Mata Ciliar/Divulgação
Dupla raridade
Esses não são os primeiros filhotes do casal. Antes, a mãe já tinha dado à luz a um macho que permanece na Associação, pois não desempenhou os comportamentos adequados para ser solto em vida livre. “Ou ele vai permanecer aqui para continuar os estudos ou deve ir para outra instituição para ser pareado com algum outro indivíduo da espécie”, explica o biólogo.
Embora haja esse risco, a torcida da equipe é para que os filhotes sempre se desenvolvam da maneira mais “selvagem”, segura e natural possível para retornarem à vida livre. “Existe a possibilidade de serem soltos, mas por enquanto esses filhotes vão ser cuidados pela instituição e, se for necessário, vão passar por um processo de reabilitação para que possam ser introduzidos na natureza”, destaca o tratador Lucas Alves.
A Associação Mata Ciliar cuida de mais de 100 animais e, entre eles, há pelo menos um indivíduo de cada uma das nove espécies de felinos brasileiros
Gato-palheiro
Solitário e de porte médio, o gato-palheiro atinge até 70 centímetros de comprimento e 35 centímetros de altura. As características visuais são as principais conhecidas pelos cientistas, que ainda não conseguiram desvendar muitos mistérios da espécie.
Em 2020, por exemplo, um trabalho de análise de mais de 10 anos revelou que não havia uma única espécie de gato-palheiro, mas cinco diferentes no território sul-americano, distribuídas pelo Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru e Equador. A descoberta despertou a necessidade de novos esforços para a conservação desses felinos de forma que sejam compreendidos antes que se tornem completamente extintos.
Pesquisa inédita revela nova classificação deste grupo de felino
Arte TG baseada na ilustração do artigo