Bares resgatam mineiridade e agitam bairros sem tradição boêmia em BH

Gabriel Bofinit Araújo
Gabriel Bofinit Araújo
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Uma cidade que tem um horizonte de oportunidades, cada vez mais ciente de que o belo que possui no próprio nome, nas ruas e no jeito do seu povo é forte o suficiente para conquistar outras culturas, línguas e tribos. Depois de uma crise imposta pela pandemia do coronavírus, que levou ao fechamento de 3.894 bares e restaurantes desde 2020, Belo Horizonte tem usado a valorização de sua identidade única como alternativa de impulso econômico.

A mineiridade, a hospitalidade de quem sempre tem um café com queijo para oferecer, a cultura e a história de 125 anos como capital se tornaram ativos importantes na reconstrução de Belo Horizonte em um momento em que o mundo precisa se reinventar. O resultado, na Cidade Criativa da Gastronomia, é a abertura de 2.016 estabelecimentos ligados à alimentação somente neste ano e, mais do que isso, um resgate de espaços tradicionais antes esquecidos ou marcados pelo aumento da violência e da depredação do patrimônio público.

Os dados levantados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico a pedido da reportagem mostram que, a cada dia, foram abertos seis novos empreendimentos ligados à alimentação em Belo Horizonte neste ano, ou cerca de 180 por mês. Desse total, 60,4% são microempreendedores individuais e não necessariamente têm portas abertas ao público.

Uma parte desses negócios contribui para a geração de renda e emprego na cidade por meio de estruturas de entrega em domicílio. Entre aqueles bares e restaurantes com estrutura física, há uma similaridade em um percentual considerável deles: a valorização de conceitos culturais e históricos.

“Vivemos uma fase de descentralização e criação de empreendimentos com conceitos. As pessoas querem comer e beber no próprio bairro. Vemos a criação de corredores gastronômicos em pontos antes esquecidos da cidade, alguns sem nenhuma tradição de ter bares atraindo pessoas interessadas na história do local e do conceito do empreendimento”, explica o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais, Matheus Daniel Pires de Moraes. Ele cita como exemplo a rua Sapucaí, no bairro Floresta, na região Leste de BH, que passou de um lugar ermo para um dos principais pontos de encontro e turismo de Belo Horizonte desde a abertura do primeiro bar no local, em 2012.

Se há dez anos a rua Sapucaí fez história como um exemplo positivo de ocupação do espaço público, neste ano, o mesmo vem ocorrendo em outros bairros. Locais sem tradição boêmia têm se tornado endereço de novos negócios gastronômicos. O Ouro Preto, na Pampulha, por exemplo, é o 15º em número de bares, mas é o quarto na lista com mais estabelecimentos abertos neste ano, com dez inaugurações. O Estoril, na região Oeste, é o sexto bairro com mais aberturas de bares em 2022, com oito novos estabelecimentos. Na lista geral de bares, é apenas o 77º, com 21 estabelecimentos com esse perfil no total. Ou seja, 38% dos bares do bairro foram abertos neste ano.

No caso dos restaurantes, ocorre o mesmo movimento. O bairro Lindeia, na região do Barreiro, é o sexto que mais registrou aberturas desses negócios em 2022, com 19 inaugurações. Na lista geral de restaurantes, no entanto, é apenas o 23º, com 74 restaurantes.

Na outra ponta, bairros tradicionalmente “botequeiros” não estão entre os mais escolhidos para a abertura de estabelecimentos neste ano. O Sagrada Família, na região Leste de BH, que é o quinto local com mais bares na cidade não figura entre os que mais tiveram aberturas neste ano, com cinco negócios criados. Situação semelhante vive o Santa Terezinha, na Pampulha, que, na lista geral de bares, está em oitavo lugar, com 57 estabelecimentos. Neste ano, apenas dois estabelecimentos foram inaugurados no bairro. A mudança, segundo Matheus Daniel, tem ligação também com custos. “Se a gente monta um bar mais alternativo, com uma pegada cultural, em um bairro sem tanta tradição noturna, sai mais em conta que uma estrutura tradicional em determinadas áreas em BH, onde o custo é muito alto. Isso é um movimento ligado à característica de inovação e criatividade comum ao mineiro”, explica.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, concorda que esse movimento reforça a importância de bares e restaurantes na capital, que é uma das Cidades Criativas da Gastronomia da Unesco. “O boteco é uma questão cultural aqui, em BH. Não é por acaso que somos a capital dos bares. O que estamos fazendo agora é alinhar esse potencial com uma vontade das pessoas de ocupar a cidade e de conhecer melhor BH. É típico do mineiro acolher pela gastronomia. Isso sem contar que aonde chegam os bares e restaurantes há uma mudança no espaço e aumento da segurança. Tudo caminha junto”, diz.

Inspirado na vida “em comunidade” e no sentimento de pertencimento de bairristas, o Paitrocínio Bar do Baiano se estabeleceu no bairro Carlos Prates, na região Noroeste da capital mineira. A escolha pela região pode surpreender. Isso porque o Carlos Prates não possui tradição boêmia. Entre os bairros da capital mineira, é apenas o 38º no número de bares, com 33 negócios – neste ano, foram apenas três novas aberturas. Contudo, a receita deu certo, e o estabelecimento, desde a inauguração, em 2020, colhe frutos de ser um dos mais frequentados da região.

Proprietário do estabelecimento, de origem familiar, Marcelo Andrade comemora. “A nossa ideia era ter um bar em um grande centro urbano que nos lembrasse uma casa de campo”. Segundo ele, um dos motivos para o sucesso do empreendimento é o sentimento de “descontração” levado aos clientes em um ambiente próximo à casa dos frequentadores, justamente por ser um bar do bairro. “Nosso prazer é ver as pessoas fazendo algo relaxante, que limpe a mente na correria do dia a dia”, afirmou.

Os clientes do bar aumentaram o fluxo de pessoas na região, o que gerou benefícios para o bairro, mesmo para moradores que não frequentam o estabelecimento. Se antes quem passava pelo local enxergava ruas “apagadas”, principalmente durante a noite, agora vê mais vida no local e sente mais segurança. “Um maior movimento inibe a ação de criminosos, e isso torna a região mais atrativa”, pontua Marcelo.

Segurança


Segundo o tenente-coronel da Polícia Militar Flávio Santiago, a realização dos investimentos e a consequente ocupação de espaços antes vazios de fato geram reflexos na segurança pública. “A policiologia é marcada por estudos complexos e multifacetados. Uma das vertentes trabalha com a hipótese de que existe o chamado ‘triângulo do crime’. Se temos um local propício, um agente motivado a cometer o delito e a vítima em potencial, fechamos a explosão. Quando o local deixa de ser propício ao crime, já tiramos uma das pontas do triângulo e reduzimos o risco de haver o crime”, explica o militar, que é chefe da comunicação da PM em Minas Gerais.

Esse ambiente propício para o crime, segundo Santiago, é marcado por muitas variáveis. Iluminação, nível de degradação, grau de visibilidade, movimentação são algumas delas. “É um erro pensar que só o aumento da iluminação já é suficiente para acabar com o crime em determinado local. Isso é uma das apostas que ajudam, mas é mais amplo que isso. É fato que, quando há uma ocupação dos espaços por pessoas, os infratores não se sentem tão à vontade de cometer alguns tipos de crimes violentos, como o estupro, por exemplo. Porque ali passa a contar com a chamada vigilância natural. É por isso que tratar de segurança é multifatorial. Nós alertamos, por exemplo, que, quando equipamentos públicos, como brinquedos em praças, estão depredados e a população deixa de frequentar, o espaço pode ser usado por traficantes. É por isso que alternamos rotas diariamente nas patrulhas porque a imprevisibilidade também é um fator que inibe o crime”, explica.

O tenente-coronel cita a praça Raul Soares como um exemplo de investimentos em estrutura com geração de resultados em segurança. “A reorganização espacial é muito importante para trazer segurança para os espaços. A praça Raul Soares passou por uma grande revolução. Nos idos da década de 90, tinha arbustos enormes lá. Depois que eles foram cortados, passou a ser permitida a vigilância natural do espaço. Quem quer praticar crimes busca o anonimato, e agora, com a visão geral do local, ficou mais difícil para eles. Com isso, agora temos as pessoas mais seguras para caminhar por lá”, diz.

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