Na contramão do Pará, Vale reduz 36% produção de minério em Minas

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Para especialistas, o maior tempo de operação das minas mineiras influenciam na queda no volume de produção, além dos conflitos causados após as tragédias de Mariana e Brumadinho. Logística também pesa

A história mostra que a relação de Minas Gerais com a mineração vai muito além do nome. O setor é responsável por boa parte da arrecadação do Estado e tem como maior expoente a Vale, que opera cinco complexos minerários na unidade federativa, divididos pelos sistemas Sul (Vargem Grande e Paraopeba) e Sudeste (Mariana, Itabira e Minas Centrais). Apesar disso, números da própria empresa mostram que a produção de minério de ferro em Minas caiu 36,3% entre 2017 e 2021: de 194,9 milhões de toneladas métricas para 124,1, uma diferença de 70,8 milhões de toneladas métricas, pouco mais que todo o complexo Sudeste colocou no mercado no ano passado. O resultado, evidentemente, tem como peso a Tragédia de Brumadinho, em 2019, que forçou a empresa a reduzir a operação em diferentes minas. Na contramão, o que se viu no Pará, onde a gigante do setor também tem ampla operação, é justamente o contrário neste intervalo de tempo: crescimento de 11% na oferta, puxada principalmente pela ascensão no sistema Serra Sul, inaugurado em 2016.

Oficialmente, a empresa informa que Minas continua importante para sua operação, até mesmo pelas projeções de exaustão dos complexos minerários. Vargem Grande, em Nova Lima, na Grande BH, por exemplo, só deve sair do mapa da exploração em 2089. Apesar disso, em Itabira, a estimativa é que a mineração chegue ao ponto final em 2041, um cálculo que era para 2031 até 2020, mas foi alargado no relatório do ano passado. O número de funcionários no Estado, conforme a companhia, gira em torno dos 20 mil (sem contar os indiretos e terceirizados), mas ressalta que “seus empregados podem se movimentar e ter oportunidades de carreira e desenvolvimento profissional em cada um dos 18 países onde a empresa atua”.

“As minas do Estado de Minas Gerais têm, gradativamente, sido esgotadas por óbvio, já que temos explorações de décadas. Outra coisa é que as autoridades de Minas têm ficado mais em cima das empresas com relação a problemas ambientais. Tem também a população no entorno das minas que é muito grande, então os conflitos (sociais) também são grandes. Então, faz sentido você deslocar seu setor de produção para o norte (do Brasil). Outra coisa é o minério de exportação. À medida que você vai aumentando a infraestrutura na região Norte, você vai deslocando a produção para lá, então é menos gasto com logística, menos dor de cabeça”, diz um especialista da área da engenharia da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), que preferiu manter anonimato. 

Para esse mesmo professor, também pesa no aumento da mineração da Vale no Pará em relação à atividade em Minas Gerais a proximidade do porto do Maranhão, o que facilita a logística de envio do minério de ferro para outros países, principalmente para o mercado asiático. Números do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) mostram que 72,2% das exportações brasileiras do produto partiram justamente para a China no terceiro trimestre deste ano.

“Pesa ainda a expectativa positiva da população do Pará com a chegada da mineradora, que vai aumentar o número de empregos. Entre o meio ambiente e o emprego, o ser humano sempre opta pelo emprego”, afirma a mesma fonte da Unifei. Dados do Ibram informam que o Pará representou 39% do faturamento da mineração no Brasil no terceiro trimestre, mesma fatia de contribuição de Minas Gerais. 

O professor do Departamento de Engenharia de Minas da Escola de Engenharia da UFMG, Beck Nader, complementa o raciocínio do colega. “Por conta dos rompimentos das barragens, houve uma grande queda de produção em época de demanda alta e preços atrativos. Isso ocasionou uma queda da participação de Minas Gerais na produção nacional. Os minérios mais ricos do Estado já foram lavrados e há uma queda dos teores (de ferro). Porém, graças ao beneficiamento, pode-se atingir teores adequados ao produto final”, diz.

Apesar disso, Beck Nader aposta que Minas poderá recuperar sua fatia no mercado e voltar a ser o principal Estado brasileiro no setor da mineração. “Com a política mineral adequada, a tendência seria de maior aumento da produção em Minas Gerais, pelo Estado contar com mais reservas e mais áreas promissoras à pesquisa mineral para definição de novos recursos”.

Minério do Pará é mais “rico”


A contribuição do Pará para a oferta de minério de ferro no mercado vem principalmente pelo chamado Sistema Norte da Vale, que está localizado em Carajás (PA). Ele é dividido por três complexos: Serra Norte, Serra Sul e Serra Leste. A Serra Norte tem três áreas de mineração (N4W, N4E e N5) e duas instalações para beneficiamento; a Sul abriga a mina S11D, que iniciou suas operações em 2016; já a Leste tem uma mina e uma usina de beneficiamento. A principal diferença da mineração do Sistema Norte para os situados em Minas Gerais é o tipo de minério: no PA, a Vale tem à disposição um produto de hematita de alto grau, portanto mais “puro”, com um teor de ferro em torno de 65%. A produção deixa o local pela ferrovia EFC (Carajás) e vai até o porto de Ponta da Madeira, no Maranhão, de onde segue para outros países, principalmente a China.

Em Minas, a produção da Vale se divide entre os sistemas Sul e Sudeste. Nesse primeiro, são dois complexos de mineração: Vargem Grande (quatro minas e quatro usinas de beneficiamento) e Paraopeba (quatro minas e três usinas de beneficiamento). Já no Sistema Sudeste, são três grandes complexos: Itabira (duas minas e três usinas), Minas Centrais (duas minas e duas usinas) e Mariana (três minas e três usinas). Ao contrário do Pará, o material mineiro tem alto índice de itabirito, uma rocha que tem entre 35% e 60% de ferro, portanto menos “puro” que o explorado no norte brasileiro. No Sistema Sudeste, toda mineração vai para o porto de Tubarão, no Espírito Santo, a partir da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM). Já no Sistema Sul, o transporte é feito pela MRS até os portos da Ilha Guaíba e Itaguaí, no Rio de Janeiro, e Tubarão (ES).

Blend entre Minas e Pará é produto premium


Independente da produção de cada estado, a Vale tem como uma de suas apostas o Brazilian Blend Fines (BRBF). Trata-se de um minério de ferro premium, formado a partir da junção entre o produzido em Minas com o que sai do Pará. O BRBF tem maior teor de ferro e menor presença de contaminantes, portanto oferece “desempenho robusto em qualquer tipo de operação de sinterização. Isso significa que o BRBF demanda menos energia no alto forno siderúrgico, reduzindo as emissões de gás carbônico na atmosfera”, informa a empresa.

Além disso, a mistura, segundo a Vale, “possibilita o uso de minério de ferro com menor concentração de Minas Gerais, permitindo planos de lavra mais eficientes e aumentando o uso de métodos de processamento a seco, que estendem a vida útil das minas, reduzem o uso de barragens e o consumo de água nas operações”.

Mas, apesar do produto ser brasileiro, a oferta segue para o mercado asiático. A produção acontece no porto de Teluk Rubiah, na Malásia, e em 17 estações marítimas localizadas na China. O objetivo, segundo a empresa, é facilitar a logística e aumentar a “capilaridade de distribuição por permitir o uso de embarcações menores”.

Itabira já pensa no futuro


Entre todos os complexos minerários da Vale no Brasil, aquele com a menor data de exaustão projetada é o de Itabira, que abriga as minas Conceição e Minas do Meio. A previsão da empresa em 2020 era de dar ponto final na exploração em 2031, mas um novo relatório no ano passado esticou esse planejamento para 2041. O prazo menor que as demais utilizações se deve ao maior tempo de aproveitamento de Itabira, que opera desde 1957.

“É claro que Carajás hoje representa o principal foco da Vale, do ponto de vista das estratégias de produção. Mas, esse esvaziamento (da produção) que é o grande medo, o grande drama de Itabira, ainda não começou. Efetivamente, não se percebe isso. O que se percebe é um movimento de empreiteiras por conta desses estudos de fechamento de minas, de descomissionamento de barragem, muitos dos quais determinados pelo Ministério Público e pela nova legislação (Lei Mar de Lama Nunca Mais)”, diz o prefeito de Itabira, na região central de Minas Gerais, Marco Antônio Lage (PSB). Para ele, a empresa tem planos de aumentar sua atuação no município.

Apesar de o temido esvaziamento da produção não ter se iniciado, segundo as palavras do prefeito, Lage garante que já iniciou medidas para diminuir a dependência da cidade da mineração. Uma consultoria internacional auxilia o Executivo municipal a pensar em estratégias. Atualmente, são 62 projetos estruturantes e 15 grupos de trabalho da sociedade civil para colocá-los em prática. “Estamos na fase agora de plano de ação junto com a Vale. A expectativa é que em novembro já possamos anunciar os projetos prioritários para a comunidade e já começar a fazer um plano de ação para o próximo ano. Um deles, que para gente é o mais importante nesse momento, é a duplicação da rodovia (MG-129, que liga a BR-381 a Itabira). Uma PPP (parceria público-privada), o governo do estado está envolvido”, diz Marco Antônio Lage.

Do mesmo partido do prefeito, o deputado estadual Bernardo Mucida tem base eleitoral na região e também defende a diversificação de investimentos. “Itabira precisa se consolidar como polo universitário. Então, para isso, precisa da conclusão das obras da Unifei (Universidade Federal de Itajubá). Têm mais de dois anos que a obra está acontecendo, mas está atrasada”, diz. E o parlamentar completa: “Itabira precisa se consolidar como polo de medicina especializada. Para isso, estão sendo feitos alguns investimentos. Agora, começou a obra de ampliação para oferecer radioterapia lá. Precisa de ampliar também o turismo e o agronegócio. O desafio é muito grande”.

Apesar dos esforços, o professor Beck Nader, da UFMG, afirma que Minas e o Brasil estão atrasados nos planejamentos para diminuir a dependência da mineração para atrair investimentos nas cidades onde as minas estão. “Infelizmente, na prática, estamos atrasados. Porém, com o aumento da tendência de aplicação dos conceitos de ESG (Environmental, social, and corporate governance), o tema da diversificação de atividades ganha importância. Mas, deve-se ressaltar que a maior verticalização da produção permitiria a redução da exportação apenas de matérias-primas, concentrando-se na obtenção de produtos com maior valor agregado, com o consequente desenvolvimento de tecnologia, maior especialização do setor e geração de atividades complementares”, afirma.


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