Sapucaí: o que era apenas um limite abriu espaços para novos horizontes

Gabriel Bofinit Araújo
Gabriel Bofinit Araújo
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A infância e a adolescência do engenheiro Carlos Roberto de Sá, de 60 anos, se dividiu entre a rotina na escola e na rua Sapucaí, onde acompanhava o pai, que trabalhava no casarão onde funcionava a sede da Rede Ferroviária Federal. A relação da servidora pública Carolina Mendonça Castro, de 68 anos, com a rua começou em 1997, quando ela se mudou com o marido e as filhas para um apartamento na esquina com a avenida Francisco Sales. O produtor cultural Oliver Bredariol, de 30 anos, teve a sua primeira experiência com a diversidade artística e gastronômica do local no começo da última década, quando decidiu morar na capital. Os três acompanharam ao longo dos anos as transformações de um lugar antes esquecido. Para quem cresceu, quem vive e quem experimenta rotineiramente a rua Sapucaí, a ocupação desse espaço, no limite físico do bairro Floresta, foi o que proporcionou a abertura de novos horizontes.

“É um lugar que se revitalizou quando as pessoas perceberam que se apropriar dos lugares públicos é importante. A mágica da rua Sapucaí aconteceu porque um dia olharam para aquele espaço e perceberam que ele é nosso”, relata o produtor cultural Oliver Bredariol. Para o engenheiro Carlos Roberto de Sá, foi esse movimento, que teve início no começo da última década, que deu vida e permitiu resgatar as belezas arquitetônicas e naturais da região. “A arquitetura, os viadutos, os balaústres, a praça da Estação, tudo o que tem ali é algo único, próprio daquele espaço. E foi essa iniciativa, de bares, de restaurantes e de eventos, que voltou a destacar a importância dessa região”, afirma. 

A transformação da rua Sapucaí ocorreu no mesmo período em que se deu o processo de revitalização do chamado “baixo centro”, que inclui movimentos como o crescimento do Carnaval de rua, a constante ocupação cultural da praça da Estação e o duelo de MCs na parte de baixo do viaduto Santa Tereza, que fortaleceu a cultura hip-hop e a ocupação do espaço público. De forma particular, essa revitalização da rua teve início em 2012, quando bares e restaurantes começaram a se instalar nas edificações dispostas em um dos lados da via, que tem pouco mais de 550 metros. A partir de então, o lugar, que foi, durante muito tempo, um local de passagem e nada mais que isso, deu espaço para um ambiente de encontros, cores e diversidade. Um movimento impulsionado pelos mais de dez estabelecimentos gastronômicos disponíveis na rua e também pela intensa programação cultural. 

“Era um abandono, tinha pouca gente morando e poucas atividades comerciais durante a noite. Era perfeito para quem queria aprontar e não ter vida. Então, no momento que acenderam as luzes, as coisas começaram a acontecer”, relembra o italiano Massimo Battaglini, sócio-fundador da Salumeria Central, o primeiro restaurante da rua, aberto ainda em 2012, e considerado o responsável pelo processo de ressignificação do espaço. A decisão de empreender na Sapucaí foi motivada pela vista proporcionada pela rua. Battaglini tinha como objetivo abrir um pequeno bar em algum ponto da capital. No entanto, quando passou pela Sapucaí com alguns de seus amigos, que tinham o mesmo objetivo, se encantou com o cenário e avistou em um ponto da rua um espaço com uma placa indicando disponibilidade para locação. O que para muitos pode ter sido uma coincidência, para ele, foi a certeza de que ali seria o local do seu bar. “No dia seguinte ligamos para a dona e alugamos. Foi muito legal porque foi uma surpresa dentro da cidade”, recorda.

Antes do começo desse processo de ressignificação, que transformou a rua em um dos mais importantes pontos turísticos e da boemia da capital mineira, a rua Sapucaí era um local temido, até mesmo por quem já morava na região. Em um dos lados da via, no viaduto Santa Tereza, era comum encontrar diversos usuários e dependentes do crack. Em outro, no viaduto Floresta, a população em situação de rua ocupava todo o espaço. A rua também tinha um cheiro forte, consequência do acúmulo de lixo e de entulhos.

“Era um lugar muito inseguro, você não conseguia parar ali porque tinha medo. O próprio morador falava que era para esperar o táxi dentro do prédio, que não era para sair na rua. Várias muretas estavam quebradas, os postes danificados, tinha batida policial de três em três horas”, relembra Oliver Bredariol. A experiência do produtor cultural, que residiu na região por cerca de dois anos, foi a mesma do empresário Massimo Battaglini. Para o sócio-fundador da Salumeria Central, a segurança pública só melhorou depois que os estabelecimentos comerciais chegaram à rua. “Onde tem vida, tem mais segurança, isso não tem jeito. Na hora que você abre um restaurante e ali começa a ter gente, você consegue algo mais seguro. Esse movimento gera segurança automaticamente, faz parte do fluxo natural de revitalização”, aponta.

Esse processo de revitalização teve como protagonistas a iniciativa privada e a ação de grupos culturais da cidade. O poder público se encarregou da restauração da mureta da rua, que é uma estrutura histórica dos primeiros anos da capital, e também do incentivo a projetos artísticos na região, como o Carnaval e o Circuito Urbano de Arte, o Cura. Por causa desse movimento, a rua Sapucaí tornou-se, em 2017, o primeiro mirante de arte urbana do mundo. Durante dias, a população pôde acompanhar ao vivo, de um só ponto, a feitura das obras em fachadas e empenas de prédios da região central. Atualmente, são 14 os murais que podem ser vistos da rua Sapucaí, incluindo o mural mais alto pintado por uma mulher na América Latina, com 56 metros de altura. 

“Todas essas iniciativas são importantes. A apropriação dos espaços públicos, seja de forma espontânea, como a que ocorreu com a iniciativa privada, ou pela população em geral implica uma maior qualidade de vida para aquela região, já que melhora os índices de segurança e tem uma menor degradação do patrimônio público, por exemplo”, afirma o subsecretário municipal de Planejamento Urbano, José Júlio Rodrigues Vieira. Conforme o subsecretário, vários projetos são estudados pela administração municipal com o objetivo de potencializar a atividade turística da rua.

A discussão dessas intervenções, segundo ele, é feita junto a empresários e moradores da região. “A gente tem a ideia de trabalhar um desenho de qualificação urbana, de potencializar aquilo o que é bacana na Sapucaí. A proposta inicial é um projeto de desenho urbano que aumente o espaço para pedestres”, revela. Alguns desses encontros ocorreram na primeira semana deste mês. No entanto, a prefeitura ainda não definiu quais serão as ações e quando elas serão realizadas. “É algo que será discutido pela população e técnicos, o município ainda busca recursos para financiar tudo isso”, completa o subsecretário.

Para Lucas Brandão, que é sócio de uma pizzaria que se instalou na rua em janeiro de 2019, discutir intervenções e melhorias para o local é imprescindível. Brandão, que também possui um bar, no bairro Prado, na região Oeste da capital, justifica essa necessidade diante das peculiaridades de empreender na Sapucaí. “Diferente do meu bar no Prado, onde o que atrai os clientes são os meus pratos, na Sapucaí, o atrativo é a rua, é a visão que aquele espaço oferece, é a mureta, o pôr do sol, essa combinação de elementos”, exemplifica.

Segundo ele, o poder público precisa articular algumas iniciativas junto aos comerciantes para que o local possa continuar como um importante ponto turístico da cidade. “O poder público e a iniciativa privada precisam cuidar mais da rua, para que ela seja mais segura, que tenha mais higiene e limpeza. A Sapucaí se transformou em um corredor gastronômico e em um atrativo turístico da cidade. Você pega um chope em um bar, por exemplo, e fica ali aproveitando uma diversidade de coisas que são de graça”, aponta.

Desde 2012, uma das propostas de intervenção é o fechamento da rua para a circulação de veículos. O projeto inicial, apresentado na época em que o local começou a se destacar na vida noturna da capital, previa a instalação de um calçadão com mesas e iluminação especial. As mudanças tinham como inspiração a Lapa, tradicional região boêmia do Rio de Janeiro. No encontro com os comerciantes da Sapucaí, que ocorreu no começo de dezembro, a proposta foi novamente apresentada, porém com a permissão de tráfego dos carros de moradores até as garagens em três quarteirões da via.

A mudança não agrada, inicialmente, à servidora pública Carolina Mendonça Castro, que reside no bairro desde 1997. Para ela, o crescimento da região trouxe também alguns problemas, que, na visão dela, são bem mais urgentes do que a limitação de circulação. “Essa questão do barulho, principalmente por ser um bairro com muitos idosos, é algo que precisa ser discutido, encontrar alguma forma para conciliar. A gente não quer que os bares saiam daqui, mas que a gente consiga ter um equilíbrio”, relata.

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