Poucos carros antigos brasileiros surpreendem tanto quanto o Gurgel Itaipu E400, veículo elétrico fabricado em série no país já no início dos anos 1980, décadas antes de qualquer marca internacional popularizar esse tipo de tecnologia por aqui. O colecionador de veículos antigos, Mário Augusto de Castro, observa que esse caso costuma surpreender até entusiastas experientes: quando se fala em carro elétrico no Brasil, a associação imediata é com marcas chinesas recentes, e poucos sabem que o país já havia produzido um veículo elétrico comercial décadas antes.
O projeto nasceu dentro da Gurgel, montadora genuinamente brasileira fundada pelo engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, conhecida por desenvolver veículos com carroceria em plástico reforçado com fibra de vidro, sem depender de nenhuma multinacional estrangeira. A ideia de um carro elétrico nacional remonta a 1974, quando a empresa apresentou o protótipo Itaipu E150, um subcompacto elétrico de desenho quadrado, que evoluiria alguns anos depois para o modelo que chegaria de fato à produção em série.
Como surgiu a ideia de um carro elétrico brasileiro nos anos 1970?
A motivação por trás do projeto Itaipu estava diretamente ligada à crise do petróleo que afetava o mundo desde 1973, levando o Brasil a buscar alternativas energéticas em diferentes frentes, da produção de álcool combustível até experimentos com propulsão elétrica. A Gurgel, sempre disposta a explorar soluções fora do padrão adotado pelas grandes montadoras instaladas no país, viu no carro elétrico uma oportunidade de aplicar sua experiência em carrocerias leves de plástico reforçado a um novo tipo de propulsão, buscando reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados em um segmento de uso urbano bem delimitado.
Mário Augusto de Castro ilustra que esse tipo de iniciativa exigia uma dose considerável de ousadia empresarial, já que a tecnologia de baterias disponível na época impunha limitações severas de autonomia e tempo de recarga, tornando o projeto um desafio tanto técnico quanto comercial. Ainda assim, a empresa seguiu investindo no conceito ao longo da década seguinte, até finalmente lançar uma versão destinada à produção em série.
Como era o Gurgel Itaipu E400 lançado em 1981?
Lançado oficialmente em 1981, o Itaipu E400 chegou ao mercado com carroceria de plástico reforçado, batizada internamente de Plasteel, e foi oferecido em três configurações: furgão de carga, picape de cabine simples e picape de cabine dupla. O veículo usava um motor elétrico de 10 kW alimentado por um conjunto de oito baterias de chumbo-ácido, oferecendo autonomia entre 80 e 100 quilômetros por carga, com tempo de recarga de cerca de oito a dez horas.
O lançamento do E400 contou até com a presença do então presidente da República, que dirigiu pessoalmente o veículo e entregou a primeira unidade à estatal de telecomunicações Telebras, reforçando o caráter institucional do projeto desde o início. Tal como indica Mário Augusto de Castro, outras empresas estatais e privadas, como companhias de energia elétrica, bancos e indústrias, também adquiriram unidades para uso em serviços urbanos e de entregas de curta distância, consolidando o Itaipu como um veículo quase exclusivamente corporativo, com pouquíssima circulação entre proprietários particulares ao longo de toda sua trajetória comercial.
Por que o Itaipu nunca decolou comercialmente?
Apesar do pioneirismo tecnológico, o Itaipu E400 enfrentou limitações que impediram sua adoção em escala mais ampla, principalmente a autonomia reduzida e o longo tempo necessário para recarregar as baterias, fatores que restringiam seu uso a trajetos urbanos curtos e previsíveis. Ao todo, foram produzidas cerca de duas centenas de unidades, quase todas destinadas a órgãos públicos e empresas estatais, com praticamente nenhuma venda a consumidores individuais ao longo de toda a produção.

Mário Augusto de Castro pondera que esse tipo de limitação técnica, comum a praticamente todos os primeiros veículos elétricos produzidos no mundo naquela época, tornava o Itaipu mais um experimento institucional do que um produto de consumo em massa. Ainda assim, o projeto provou tecnicamente que era possível fabricar, em escala reduzida, um veículo elétrico funcional usando tecnologia nacional, décadas antes de esse conceito voltar a ganhar relevância global.
O que o caso do Itaipu revela sobre inovação em carros antigos brasileiros?
A trajetória do Itaipu mostra que o Brasil já testou soluções tecnológicas hoje consideradas de ponta muito antes de essas ideias se tornarem tendência mundial, um fato pouco lembrado mesmo entre entusiastas de carros antigos concentrados em modelos a combustão. Esse tipo de pioneirismo isolado, sem continuidade imediata, costuma ficar esquecido justamente por não ter gerado um mercado de massa na época em que foi criado.
Mário Augusto de Castro considera que resgatar esse tipo de história é importante para entender a real amplitude da engenharia automotiva brasileira, que não se resume aos carros populares mais lembrados, mas também inclui experimentos ousados como o Itaipu, hoje extremamente raros e disputados por colecionadores especializados em veículos elétricos pioneiros, justamente por representarem um capítulo tecnológico que antecipou, com décadas de antecedência, um debate que só voltaria à pauta global recentemente.
Para quem hoje tenta localizar um exemplar remanescente do Itaipu, a tarefa costuma ser ainda mais complicada do que a busca por clássicos a combustão da mesma época, já que a maioria das unidades produzidas pertencia a frotas institucionais e foi descartada ou sucateada assim que as baterias originais perderam capacidade de recarga, sem que existisse, à época, qualquer mercado de reposição especializado em veículos elétricos capaz de sustentar sua permanência em uso por décadas seguintes.
