O que a comunicação não verbal revela numa negociação?

Sofia Delvani
Sofia Delvani
5 Min de leitura
Haroldo Augusto Filho

Numa negociação, o conteúdo do que é dito costuma receber toda a atenção, enquanto o ritmo, as pausas e as mudanças de tom que acompanham esse conteúdo passam despercebidos, mesmo carregando informação relevante sobre como a outra parte está reagindo ao que está sendo proposto, muitas vezes antes mesmo de ela colocar essa reação em palavras.

Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que sinais não verbais raramente substituem o que é dito em palavras, mas costumam complementar essa informação de um jeito que muitas equipes de negociação aprendem a ignorar.

A velocidade da resposta carrega informação própria

Uma resposta imediata a uma proposta específica tende a indicar que aquele ponto já havia sido considerado antes da conversa. Uma pausa mais longa antes de responder pode indicar que o ponto pegou a outra parte de surpresa, ou que envolve alguma avaliação mais cuidadosa antes de qualquer posicionamento. Nenhuma das duas leituras é definitiva sozinha, mas ambas oferecem uma pista que complementa o conteúdo da resposta em si, especialmente quando comparada ao ritmo que a mesma pessoa manteve em pontos anteriores da conversa.

Prestar atenção a esse ritmo, sem tirar conclusões precipitadas de um único momento isolado, ajuda a perceber quais pontos da proposta pesam mais para a outra parte do que ela está disposta a admitir em palavras. Haroldo Augusto Filho considera esse tipo de observação especialmente útil nas primeiras rodadas de uma negociação, quando ainda há pouca informação explícita sobre as prioridades reais de cada lado.

Mudanças de tom sinalizam deslocamento de terreno

Um tom mais formal, adotado de repente no meio de uma conversa mais informal, costuma acompanhar um momento em que a outra parte está prestes a formalizar uma posição ou recuar de algo dito antes com menos cuidado. O oposto também acontece: um tom que fica mais leve depois de um trecho tenso pode sinalizar que aquele ponto específico deixou de ser um obstáculo real, mesmo que ninguém tenha dito isso em voz alta.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Haroldo Augusto Filho destaca que essas mudanças de tom raramente vêm acompanhadas de explicação, e por isso costumam passar despercebidas por quem está concentrado apenas no conteúdo literal da fala, sem prestar atenção em como esse conteúdo está sendo entregue. Notar essas transições exige acompanhar a conversa como um todo, não apenas registrar cada frase de forma isolada.

O silêncio depois de uma proposta também comunica algo

Um silêncio mais longo depois de uma proposta específica costuma gerar desconforto em quem propôs, levando à tentação de preencher esse vazio com uma nova oferta antes mesmo de a outra parte responder à primeira. Esse impulso, quando cedido, costuma custar caro: entrega uma concessão adicional sem que a outra parte tivesse sequer pedido por ela, apenas porque o silêncio pareceu, naquele instante, mais desconfortável do que realmente era.

Haroldo Augusto Filho nota que aprender a tolerar esse silêncio, sem preenchê-lo automaticamente, é uma das habilidades menos discutidas em negociação, apesar de ter impacto direto sobre quantas concessões acabam sendo entregues sem necessidade real.

Ler sinais não verbais é complemento, não substituto do conteúdo

Sinais não verbais oferecem contexto útil, mas não deveriam ser tratados como leitura definitiva do que a outra parte pensa ou vai fazer a seguir. Nesse contexto, Haroldo Augusto Filho comenta que o real valor está em usá-los como informação adicional que ajuda a interpretar melhor o que está sendo dito, não como um atalho para adivinhar intenções sem prestar atenção ao conteúdo real da conversa, que continua sendo a base de qualquer avaliação séria sobre onde a negociação está de fato.

Equipes que combinam atenção ao conteúdo verbal com sensibilidade a esses sinais complementares tendem a captar mudanças de posição mais cedo do que aquelas que dependem só das palavras ditas explicitamente, e conseguem ajustar a própria condução da conversa antes que essas mudanças se tornem evidentes para todos.

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